quinta-feira, 8 de julho de 2010

Frenético



"O mundo tornou-se perigoso, porque os homens aprenderam a dominar a natureza, antes de dominarem a si mesmos."
Albert Schweitzer
Fonte: Frases







O que fazer quando o momento mais tosco da sua vida, de repente, se torna um dos melhores que você já viveu?
Acho que a coisa mais sensata a se fazer é aceitar o meu jeito bobo de ser.
Também né, fazer o quê?
Tenho certeza que isso é culpa dos hormônios da puberdade. Sério, não existe outra explicação.
Como um garoto que, a um segundo atrás, eu nem sabia que existia, e agora, parece o único ser que existe no universo todo?
Não sei.
Só sei que é uma sensação muito boa.
É como um dia de sol dentre cem dias nublados. Aparece do nada, sem ninguém esperar, e faz com que tudo fique mais bonito e feliz.
Como se fosse amor à primeira vista. Mas não é igual. É ainda mais intenso.
Mas, como sempre existe um mas... Será que ele também se sente assim?
Tenho coragem o suficiente para me declarar?
Isso parece idiota pra você?
É porque nunca deve ter vivido essa situação...
Bem, Felipe é mais do que tudo que já pude desejar. Disso eu sei, mesmo conhecendo-o tão pouco.
Ele não se parece com o restante de garotos insensíveis e idiotas que existem por aí...

Levantei-me da cama apressada. Com um salto desci da beliche.
Dessa vez, antes de abrir a porta, me assegurei de que estava apresentável.
Olhei no berço da minha irmãzinha. Ela ainda dormia.
Parecia um anjo tirando um cochilo numa nuvem branca e fofinha.
Acariciei seus cabelos castanhos enquanto acompanhava seu respirar.
"Um dia Alice será modelo". Pensei carinhosamente, observando os traços da pequenina.
Escutei um som do lado de fora do quarto e fui até a porta.
Alguém bateu no momento em que toquei na maçaneta. Isso me assustou. Ri baixinho.
Abri a porta devagar, esperançosa.
E lá estava ele... O meu irmão!
Ninguém merece...
Não pude conter a minha expressão desapontada. Ricardo percebeu isso.
- Que foi? - ele sorriu maliciosamente - Esperava que fosse quem?
- Ninguém não, Ricardo - respondi, um pouco sem paciência para o bom humor matinal do meu irmão mais velho.
- Posso chutar? - por que ele não tirava aquele sorriso do rosto? - Aposto que você queria que fosse o Felipe!
- Ãn? - fingi não entender. Como ele sabia? Sou assim tão transparente que as pessoas podem ver dentro da minha mente e do meu coração?
- Ahh! Não se faça de boba, Beatriz! Todo mundo viu como vocês estavam - Kaká fez aspas com as mãos - "fofinhos".
- Fofinhos? - eu ri - Nem conheço ele direito, menino!
- EU te conheço. E você não me engana. - acho que Ricardo anda me espionando. De verdade.

Depois daquele acontecimento da manhã, resolvi ficar mais na minha. Ajudei a vovó a cuidar do jardim e da horta. Nós até colhemos algumas frutas, entre elas, melancias deliciosas. Vovó disse que o pé de melancia nasceu do nada, de sementes que simplismente foram descartadas por ali.
Nesse exemplo a gente pode ver como a natureza tem vontade de viver. Fico indignada em saber que, mesmo com tanta vontade de sobreviver a esse mundo capitalista, a natureza é assassinada por serras elétricas e tratores gigantes.
Alice estava por ali. Andando descalça sobre a terra molhada.
Tropeçou numa pedra. Caiu de bumbum no chão.
Esperei pelo choro estridente. Mas não veio.
O que veio foi uma gargalhada feliz e divertida. Sem sentindo. Assim como toda risada de bebê.

Minhas mãos estavam entretidas com a terra, mas a cabeça não estava ali. Estava em alguma pessoa em algum lugar daquela enorme casa, e que, com certeza, não estava pensando na garota que se ajoelhava sobre as plantas e cavava com uma pequena pá.
Não, não. Ele não estava pensando em mim. Disso tenho certeza. Por que pensaria?
Nesse momento, nem deve lembrar da minha existência. Aposto que ele tá fazendo alguma coisa boba de garoto com nossos irmãos e os outros.


Felipe
"Você é um idiota". Foi a primeira coisa que pensei ao ver o meu reflexo no espelho do banheiro.
Abri a porta e saí dali. Meu pensamentos pareciam presos com aquela porta fechada.
Fui ao quarto onde estava acomodado, e olhei pela janela.
Ela pegou a irmã no colo e a ergueu. Sorria.
Pensei nela a noite toda. A manhã toda. E agora, a cada segundo que passa, penso nela em todos eles.
Ela não estava pensando em mim. Disso tenho certeza. Porque pensaria?
Não posso negar que tenho experiência com garotas. Já fiquei com várias. E nunca encontrei uma tão especial quanto a Beatriz.
A Bia é tão diferente do resto. Não só porque ela é a menina mais linda que já vi em toda a minha vida, mas porque ela é descontraída, radiante, feliz.
Foi a única capaz de amarrar meu coração, pois ninguém nunca conseguiu fazer isso.
É como amor à primeira vista, porém, é muito mais forte do que isso.
Não vejo a hora de poder tê-la em meus braços. E, se isso for muito, quero pelo menos vê-la sorrindo só pra mim mais uma vez.

Procurei meu irmão pela casa toda, até que o encontrei jogando futebol com os outros caras. Senti uma grande vontade de jogar, que passou no momento em que olhei pro lado e encontrei o olhar de Beatriz. Ela virou o rosto. Ri baixinho da reação dela.
Enfim, será que terei uma chance?
Fui andando com passos leves até ela.
Estava ajoelhada em cima da terra. Fazia um buraco. Largou a pequena pá e pegou algumas sementes. Jogou-as na fenda e depois colocou mais terra por cima.
Ajoelhei-me ao seu lado e disse:
- Precisa de ajuda? - abri um sorriso, fitei seus olhos e esperei uma resposta.
- AI! Que susto! - sorriu, um pouco sem jeito. Seus olhos azuis atigiam os meus com tamanha intensidade que tive a estúpida reação de desviar o olhar.
Beatriz entegou-me a pá mostrando onde devia trabalhar.
Ficamos ali, cavando e plantando em silêncio.
Mas não era um silêncio incômodo. Era saudável e natural.
Quando, enfim, acabamos, ela disse:
- Pronto! O quer fazer agora? - batia as mãos para limpá-las.
- Vamos ali, perto da piscina. - apontei para a piscina que estava próxima.
Andamos até lá.
Certifiquei-me de que não havia niguém por perto.
Segurei sua mão e a coloquei do lado esquerdo do meu peito. Onde meu coração disparava freneticamente.
- Olha o que você faz comigo - eu disse, olhando profundamente em seus olhos.
- E-Eu? - Bia respondeu, nervosa.
Coloquei a outra mão em sua cintura e a puxei para mim.

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