
"Alice: a verdadeira. Extremamente sincera. Possui o dom da liderança."
Fonte: nomes
Chegamos na casa da vovó por volta das 6 da tarde. O céu estava praticamente todo escuro quando meu pai estacionou o carro no meio fio da calçada.
Geralmente a viajem não é tão longa, dessa vez demorou porque tivemos de passar em Ouro Preto pra pegar o meu irmão mais velho, o Ricardo. Kaká para os íntimos.
Ele estava na UFOP (Universidade Federal de Ouro Preto), onde cursava Engenharia Civil.
Kaká entrara no carro, depois de nos convidar para um lanche, com empolgação. Havia tempo que não via vovó.
Com seus 21 anos completos, meu irmão já havia preparado o seu futuro. Seria um engenheiro químico que teria uma carreira renomada e com muito sucesso.
Nos contou sobre mais uma de suas aventuras, com seus amigos malucos, que costumavam acontecer nos fins de semana em que não ia nos visitar.
Já mencionei que esses tais amigos do Kaká são lindos? Eles não têm aquela infantilidade que os garotos da minha idade costumam ter... São praticamente homens, mas não por completo. Se encaixam na mesma fase em que o meu irmão está, entre adolescência e a vida adulta. São bobões, gracistas, piadistas, fortes, sarados, altos, bonitos, com barba...
Ahh, os amigos do meu irmão... Meu sonho de consumo é ter um daqueles pra mim...
- Meus amigos devem chegar pela manhã - Ricardo falou com mamãe, baixo, para não acordar Alice, que dormia na cadeirinha, enquanto pegávamos as tralhas no porta-malas.
"Meus amigos?". Pensei. "Será que eu ouvi bem? Os amigos de Kaká vao vir passar as férias aqui?". Bem, é melhor confirmar esta história.
- Kaká, seus amigos vão passar as férias aqui na casa da vovó também? - perguntei ansiosamente.
- Eles não vão ficar as férias todas aqui, acho que uma ou duas semanas - parou por um segundo - a vovó deixou né, só não sei se ela vai aguentar aquele bando de marmanjos aqui - ele riu. De repente parou e olhou pra mim, estreitando os olhos - por que você quer saber?
- Ah, nada não - fingi desinteresse, sem sucesso - só pensei que a vovó iria se assustar se eles chegassem aqui, do nada - bem, eu iria adorar...
- Tô sabendo viu, Beatriz... - ele pegou uma mala para levar para dentro de casa - tô de olho em você.
Revirei os olhos para a desconfiança do meu irmão. Apesar de estar certo, ele devia acreditar no que eu digo.
Ri baixinho de alegria. Os gatões ficariam na casa da minha avó!
Olhei o porta-malas. Vazio. Pronto! Só faltou uma mala, e essa tem nome e sobrenome: Alice Rodrigues!
Brincadeira! Minha irmãzinha não é uma mala. Quando não está com sono ou com fome, ela é um amorzinho.
Com cuidado e fazendo o mínimo de barulho possível, tirei-a dali.
Com o meu bebê no colo, finalmente entrei na casa da minha avó.
- Oi meus amores! - vovó Cecília quase gritou de empolgação ao nos ver, as únicas netas, entrarem pela enorme porta de madeira.
- Shhhhh - todos fizeram ao mesmo tempo, enquanto olharam rapidamente para Alice, para se certificarem de que ela não havia acordado.
Vovó riu e veio nos dar um beijo de boas vindas.
Enquanto jantávamos, minha avó contou uma de suas divertidas histórias na época em que ainda namorava com meu avô. Nunca vi um amor tão grande quanto o deles. Mesmo depois do falecimento do vovô, minha avó nunca conseguiu olhar para outro homem. É um amor eterno. Exatamente do jeito que eu quero.
Na casa enorme da minha avó, eram mais de cinco quartos, e um deles era somente dos netos. Duas beliches, uma cama de solteiro e uma cômoda faziam parte da mobília do quarto dos netinhos. Há dois anos essa mobília foi incrementada, com um berço.
Deitei na parte de cima de uma das beliches, queria dormir logo, tinha uma ansiedade exagerada para que o dia seguinte chegasse logo.
Acordei cedo demais. Ansiosa demais.
Com preguiça de me levantar, fiquei imaginando em como seria quando os amigos do meu irmão chegassem. Fazia uns dois anos que eu não os via e que eles não me viam.
"Será que me acharão pirralha demais? Será que dirão: 'UAU! Como você cresceu!'"
Pensava sobre o assunto enquanto tentava espantar a preguiça para que pudesse me levantar. Mas não consegui. Acabei adormecendo novamente.
Acordei de novo por volta das nove e meia.
Olhei a cama em que meu irmão dormira. Vazia. Olhei o berço. Vazio.
Todos já estavam de pé.
Saí da cama. Pijama, cabelo desgrenhado, cara de sono.
Abri a porta do quarto.
Lá estavam eles. Olhei o corredor e todos estavam ali, todos de quem me lembrava. Viraram seus rostos lindos e barbeados para mim, nenhum deles fez menção de rir. Ainda bem!
Fechei a porta correndo.
Encostei na porta, ofegando.
Eles realmente me viram assim?
Colei o ouvido ali, para ouvir seus comentários.
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