sábado, 24 de abril de 2010

Um sorriso basta






"Sorria, que a vida sorrirá para você!"
Jean Diamantino



- BIA! - meu pai gritou lá da garagem - CADÊ AS SUAS MALAS? - mesmo com fones de ouvido, consegui escutar. Isso é só uma ideia da altura da voz do Sr. Raul...
Olhei para as minhas coisas em cima da cama. Uma desordem organizada, na qual apenas uma adolescente conseguiria entender.
A antiga mala de couro estava estufada e cheia. Pulei em cima dela, forçando-a que me obedecesse e se fechasse. Puxei o zíper com dificuldade abrigando os excessos dentro da mala. Sorri maliciosamente por conseguir o que queria.
"UAU! Realmente uma grande conquista, Beatriz! Arrasou!" pensei ironicamente, enquanto ria de mim mesma e da minha infantilidade saudável.
Joguei os meus itens de sobrevivência feminina dentro da maior bolsa que encontrei no meu armário, peguei a mala abarrotada e me despedi do meu quarto. Ficaria um bom tempo sem o conforto da privacidade que ele me oferecia.
Sr. Raul me esperava impaciente, encostado no carro, os braços cruzados e o pé batendo no chão. Ah, e estava bufando, como sempre faz em seus momentos raivosos.
John Lennon gritou "Help!" nos meus ouvidos no exato momento em que papai me viu e lançou aquele olhar. O olhar.
"Oi, tem alguém ai pra me dar um "Help"? "Heeelp! I need somebody!" Ah! Mas nesse caso pode ser qualquer um viu?" pensei e ri enquanto lhe entregava minhas tralhas.
(Quem não entendeu, entre no vagalume e entenda)
Meu pai resmungou algo não identificado. Preferi ignorar.
Tirei os fones de ouvido e desliguei o meu MP3. Devia poupar bateria para a viajem.


Vanessa entrou na garagem com a pequena Alice no colo.
Alice sorriu ao me ver, o seu pequenino rosto de anjo se iluminou e seus braços gordinhos se estenderam na minha direção.
Sorri enquanto andava e observava a sua impaciência. Ergui as mãos para pegá-la e ela pulou em mim, provocando risos da parte de todos os presentes.
Mesmo sendo tão pequena, Alice sabia exatamente da influência que exercia sobre as pessoas, especialmente sobre a irmã babona aqui, a Bi, como ela costumava me chamar por ainda não conseguir pronunciar muito bem as palavras.


Quando Alice nasceu, eu tinha 13 anos. Me lembro de todos os detalhes, de antes de depois da sua chegada. Papai perguntando o que eu achava de ter mais um irmão; Vanessa pedindo miojo com chocolate em pleno café-da-manhã; Sr. Raul me acordando de madrugada - desesperado - para corrermos ao hospital; a primeira vez que vi minha irmãzinha, na maternidade, lembro que chorei de emoção ao vê-la e que, enquanto limpava as lágrimas, ela sorriu pra mim, um sorriso banguelo e fofo de neném. Vanessa dissera que aquela fora seu 1º sorriso. O que me fez a irmã mais feliz desse mundo.


Seus olhos azuis observavam minhas mãos que se movimentavam agilmente para colocar os cintos da cadeirinha.
- Segurança! - eu disse, ao terminar de prendê-la.
Os dentes de leite se mostraram num sorriso sincero e doce, digno de uma criança.
- Olha a foto! - Vanessa disse, empolgada, quando todos já estavam prontos para partir. Esticou o braço e o pescoço, enquanto se contorcia para entrar na imagem. FLASH!
Ela olhou o armazenamento de fotos da câmera.
- Pegou todo mundo, que sorte! - parecia muito animada. Deu uma conferida em todos com o olhar - todo mundo de cinto né? Vamos!
Eu ri da animação de Vanessa, embora isso fosse algo comum na personalidade da minha madrasta.
Meu pai saiu da garagem com o carro e acelerou. Uma viagem longa pela frente...

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