sábado, 20 de março de 2010

Algo simples

Que ótimo. Além de um monte de confusões dentro de mim, agora tinha uma indigestão. Não consegui mais comer, e o meu estômago fazia barulhos altos, reclamando de algo, que não identifiquei.
O almoço foi por água abaixo. Quando pensei que teria paz, ao menos quando estava comendo, BAM! Aparece a insuportável da Rafaela.
Eu já havia desistido de tentar entender as coisas. Quando pensamos que um é um safado e o outro é um princípe, vem alguém e muda isso. O safado parece um anjo quando descobrimos a verdade sobre o príncipe.
Ninguém merece.
Saí do refeitório com passos firmes. Tentava não acreditar no que a patricinha Rafaela havia me falado, mas era difícil. Ela disse com tanta firmeza, e parecia realmente magoada com tudo que aconteceu.
De repente, uma luz se abriu na minha mente. E DAÍ? Minha consciência gritou para mim. VAI DESPERDIÇAR ESSA VIAGEM POR CAUSA DISSO? VAI VIVER GAROTA!
- É! Isso aí! Isso mesmo que eu vou fazer! VIVER! - gritei, falando sozinha mais uma vez. Quem sabe não estava mesmo louca?
Corri para a piscina principal do clube. Estava com o meu biquíni lilás por baixo do vestido branco.
Arranquei o vestido com apenas um movimento e me joguei na água, molhando quem estava próximo.
Quando voltei à superfície me senti limpa por dentro. Como se tivesse feito uma faxina de última hora no meu pequeno, e ao mesmo tempo, grande interior.
Sorri. Me sentia feliz novamente. E isso ninguém poderia me tirar.
Nadei de um lado ao outro da piscina, apostando corrida comigo mesma. Mergulhei. Voltei. Ri quando minha franja tapou toda a minha visão.
Parecia uma criança ao brincar com água pela primeira vez.
- Mel! - uma voz familiar me chamou, parecia aliviada em me encontrar.
- Oi Debi! - sorri ao vê-la, minha linda amiga Débora.
- Onde você estava, sua louca? - ela disse, se aproximando da beira da piscina.
- Por aí - fechei os olhos e fiz um movimento circular com o corpo e com as mãos.
- Tô te procurando a um tempão Melissa! - falou, quase parecia preocupada.
- Já achou! - ri, fazendo ela sorrir, finalmente - o que foi?
- Olha, me desculpa por eu ter levado o Fernando pro nosso quarto. Eu... - parou por um instante e logo continuou - eu não sei aonde estava com a cabeça pra fazer isso, amiga. Me perdoa?
- Tudo bem - murmurei, triste ao me lembrar daquela situação constrangedora.
- Na sua cama ainda, desculpa amiga, de verdade.
- TUDO BEM! - gritei, acho que ela não ouviu da primeira vez - nem me lembrava mais disso.
- Ah, então tá. Que bom que não te magoei - estava aliviada. Mas havia me magoado mais do que podia imaginar.
- Mas, e aí, você nem me falou que tava gostando do Nandinho... - fui devagar, amaciando o terreno.
- Nossa, é mesmo né? Eu nem tava gostando dele, nem tinha reparado no quanto ele me olhava, acredita? - minha amiga suspirou, emocionada - nós trocamos tantos olhares, Mel! Você não tem ideia! Ele me consquistou apenas com os olhos!
Sério? Que coincidência! A mim também! Minha consciência declarou, ironicamente. Parecia até uma piada a Débora dizer isso. Não era a mim que ele queria? Só queria me usar para chegar na minha amiga? Perguntas desse tipo me sondaram durante algum tempo, depois, resolvi relaxar e esquecer as preocupações mais uma vez. Foi tão bom antes.
- Sério Debi? Tomara que vocês namorem e sejam felizes para sempre! - disse, forcei a alegria o máximo que pude.
Ela riu. Pareceu não perceber o quanto eu havia lutado para dizer aquilo com naturalidade.
- Você é sempre tão exagerada - riu de novo. - Quem sabe né? Não sei do futuro, mas o presente é ótimo!
Sorri em reação à sua felicidade. Nunca havia visto Débora tão satisfeita e realizada. Estava realmente muito feliz.

Sabia que não poderia adiar mais. Teria de resolver tudo, de qualquer jeito. O dia já estava praticamente tomado pela escuridão da noite. O pôr-do-sol se foi, deixando pequenos rastros de cor laranja no céu.
Saí da água quando os empregados do clube ligaram as luzes noturnas da piscina.
Aquilo era como um aviso de que eu não iria mais enrolar. Teria de conversar com Alexandre e esclarecer a história de Rafaela.
Fui para o meu quarto a fim de estar mais apresentável para aquela conversa difícil que viria. Tomei um banho longo, insconscientemente tentando me dar mais tempo para pensar.
Liguei para Alexandre, avisando da minha visita casualmente planejada. Ele dissera: "O que você quer conversar Mel? Posso ir até aí se quiser..." Respondi, quase com falta de educação: "Não! Quero ir no seu quarto, pra conversarmos sozinhos. A Débora tá aqui comigo".
Coloquei uma roupa fresca. O calor chegava a ser insuportável sem um ventilador.
Um short curto de malha e uma camiseta larguinha. Vestindo isso, saí do chalé decidida. Não, nem tanto. Saí do chalé querendo resolver os enigmas que estavam formados na minha cabeça. E no meu coração.
Andei numa velocidade normal, porém, lenta demais.
Sabia onde era o quarto de Alê. Já podia avistar o lugar, mas parei quando vi uma cena, que quase não pude acreditar ser real.
Rafaela estava ali. Sozinha? Não.
Com Alexandre. Os dois estavam num clima de romantismo ridículo. Me escondi atrás de uma árvore e observei o que estava acontecendo.
Não era exatamente um clima romântico. Alexandre se desviava dos braços desesperados da patricinha. Sua expressão era de alguém incomodado. Queria se livrar dela. Pelo menos era isso que os meus olhos queriam ver.
Ele a empurrou com as duas mãos, lhe disse algo decididamente. Ela segurou o rosto dele. Alexandre, rápido, arrancou as mãos nojentas de Rafaela.
Ela ergueu um dedo, apontando para ele, que pareceu revirar os olhos. A garota foi embora, me dando a deixa para avançar.
Ele estava de costas, andando para entrar no quarto.
- Oi - eu disse, timidamente. Não sabia se estava nervoso, devido à visita da patricinha.
- Mel? - ele se virou, e sorriu.
- Presente - ergui uma das mãos, sorrindo.
Ele riu.
- Sempre fazendo graça - disse isso enquanto me abraçava com carinho.
Ao estar parcialmente livre de seus braços, ergui o olhar para fitar o seu rosto.
Parecia feliz por eu estar ali.
Fiquei na ponta dos pés para lhe dar um beijo. Ele retribuiu.
Meu coração acelerou, como sempre. Mesmo tão confusa, continuava perdidamente apaixonada por ele.
Eu conseguia imaginar a cena do lado de fora. Pude ver a lua lançando suas luzes prateadas no casal que estava no jardim de um dos pequeninos chalés do clube. A noite caía sobre aquele beijo, trazendo dimensões gigantescas para algo simples. Um grupo de jovens, provavelmente nossos amigos, que passava na calçada, gritou e zombou da dupla de amantes, algo típico dos nossos colegas de turma.
De repente, nada mais fazia sentido. As palavras de Rafaela se tornaram, simplismente, algo inútil.
Não me importava mais nada, só Alexandre.

O amor está no ar.
Não perca o próximo post :D

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