Diminuí o ritmo dos meus pés.
Havia chegado à pequenina pracinha do clube.
Sentei em um banco de madeira e escorei a cabeça no apoio.
Esse banco seria o meu refúgio. Era bem difícil me ver ali, atrás da gigantesca e antiga árvore que já estava ali há muitas e muitas décadas. Era uma pena que eu não soubesse identificar que tipo de árvore era aquela.
Pensei sobre o que havia acontecido nos últimos dias.
Saí do meu pequeno buraco do interior, para me dar uma segunda chance na capital. Um lugar cheio de lugares e pessoas diferentes. Algo desconhecido, que até então, eu não havia convivido. Descobri que alguns daqui da cidade grande podem ser muito receptivos, por outro lado, existem outros que não suportam que seus brilhos sejam ofuscados. Me apaixonei perdidamente por um garoto praticamente desconhecido, e comprometido. Fui tão tímida ao ponto de não querer saber nem o nome dele. Passei inúmeros dias sonhando e imaginando como seria estar ao seu lado. Fui de excurssão para um clube, junto com toda a galera. Me aproximei do desconhecido, deixando o termo desconhecido para trás. Resolvi me divertir numa festa na fogueira só de adolescentes. Dei uma olhada em volta e o que eu vejo? O olhar mais intenso e apaixonante que já havia encontrado. Não soube explicar o que havia acontecido comigo, de repente, me senti perdida de amores pelo garoto do olhar. O ex-desconhecido me puxou, me beijou e me deixou ainda mais caída. Além do mais, apagou minha memória, me deixando desamparada no meio da indecisão. Depois de uma manhã romântica, resolvi tomar um banho e o que encontro? O garoto do olhar e minha melhor amiga numa paixão desesperada. Em cima da MINHA cama.
Ainda bem que os dois tiveram consideração comigo, e com a minha cama também.
Rá, rá. Isso foi realmente muito irônico.
Afinal, minha vida precisa sempre ser tão complicada? Envolvendo melhores amigas, namorados, pretendentes e afins?
Quando é que vou encontrar alguém que tenha consideração pelos meus sentimentos?
Com os pensamentos voando longe e o coração apertado, adormeci ali. No meu refúgio-banco. Atrás da gigantesca árvore velha.
Abri os olhos lentamente. Tinha uma bela recordação. Um sonho. Um sonho lindo. Vi os meus pais, eles já estavam velhinhos, sentados no pequeno sofá de couro, na sala da minha casa no interior. Assistiam na televisão à um canal sobre saúde e higiene pessoal. De repente, três crianças irrompem a porta. Gritam, correm, abraçam, riem e sorriem, esbanjam alegria e contentação, só de estarem ali. Logo, as crianças sorriem ainda mais e olham para a porta principal da casa. Um casal entra, abraçados. A mulher sorri. Está feliz por voltar àquele lugar. Por ver as crianças interagindo com os velhinhos. O sorriso da mulher, largo, branquinho. Muito parecido com o meu. O cabelo castanho claro, os olhos cor de mel. A pele ligeiramente brozeada. O homem usava um chapéu. A aba cobria o seu rosto. Ele sussurrou: "Mel...". Lenvantava a cabeça devagar, tudo parecia ter ficando em câmera lenta. A mulher virou o rosto e o olhou. Já podia ver a boca dele. Os dois sorrirram.
E então, eu acordei.
Eu era a mulher, é claro. Mas só cheguei a essa conclusão quando acordei.
As crianças eram meus filhos, netos dos idosos, os meus pais.
Mas e o homem? Por que estavam com o rosto encoberto?
Sonhos são mensagens do nosso subconsciente. Mistura fatos do dia, com algo que pensamos e os nossos maiores desejos.
Interpretar esta mensagem seria difícil. Esse sonho não queria dizer nada.
Por que aquele homem não mostrou logo a cara? Pensei. Estava ficando irritada. Sabia que o homem só podia ser, ou Alexandre ou Fernando.
Me levantei. Meu estômago roncou, implorando por comida.
Fui ao refeitório, peguei um prato e me servi no self-service.
Sentei numa das mesas de ardósia que existiam ali. Imaginei que todos haviam almoçado, pois ninguém conhecido estava ali. Somente algumas garçonetes que limpavam as mesas.
Comi vagarosamente, quem sabe estava esperando que alguém chegasse e me fizesse companhia.
Com o olhar baixo, focalizando apenas o meu almoço. Escutei alguns passos. Não quis olhar quem era. Não queria saber. Senti uma intuição de que não seria agradável.
Se sentou do meu lado.
- Oi - disse, era uma voz feminina, que não reconheci.
Não resisti. Virei meu rosto e olhei. Me surpreendi. Como assim? Pensei, admirada.
- Oi? - eu falei, ainda abismada com aquilo.
- Quero conversar com você - Rafaela, sim. Ela veio falar comigo. E o seu tom era ameno. Um tom que demonstrava algo bem parecido com arrependimento e perdão.
- Pode falar - respondi.
- É que eu fiquei sabendo sobre o que aconteceu entre você e o Alexandre - ela suspirou - ele falava muito bem de você enquanto namorávamos. Bem até demais. As vezes eu até ficava com ciúmes. Por isso não fiquei surpresa quando vieram me falar sobre o assunto. Achei que seria algo que aconteceria, mais cedo ou mais tarde. Só não sabia que seria tão cedo. - Rafaela suspirou de novo. Ainda mantinha o tom doce e educado.
- Er... Eu disse isso à ele, que deveríamos esperar que a poeira abaixasse, mas acho que ele não quis que ficássemos separados mais - fiquei sem jeito e respondi da melhor maneira possível.
- Eu sei Melissa. Ele não quer esperar porque quer ver o circo pegar fogo. Quer que todos comentem e falem sobre isso. Que me deu um pé na bunda e já pegou outra.
- O quê? - não escondi o meu espanto.
- É isso mesmo. Vim aqui te falar isso, porque eu realmente desejo que você não seja a próxima a ser chutada e trocada tão rápido. Você não conhece o Alexandre, Melissa. Não sabe do que ele é capaz pra continuar sendo o maior popular da escola. - Ela levantou, enquanto eu a observava - Abre os olhos.
Ninguém merece. Acho que eu não estava confusa o bastante né? Ainda precisava de mais isso.
De qualquer forma, tá na cara que a Rafaela veio aqui me dizer esse monte de coisas só pra me fazer brigar com o Alê.
É lógico que era tudo inveção.
Um monte de mentiras ridículas. Ou será que não?
Agora Mel está ainda mais confusa. Rafaela queria mesmo ajudar?
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