terça-feira, 9 de fevereiro de 2010

Súdita

Depois de duas semanas, nada mudou muito.
Eu continuava sendo o centro das atenções, e os meninos estavam malucos, querendo saber qual deles eu escolheria.
O meu escolhido já era o escolhido de alguém. Um alguém com muitos acessórios cor-de-rosa, e muita maquiagem.
Nessas duas semanas, Rafaela continuou me encarando. Mas sem vir falar comigo outra vez. Aposto que ela nem imaginava o que estava acontecendo entre mim e o seu namorado.
Sim, estavam acontecendo muitas coisas entre nós. De beijos longos e elaborados à beijos na bochecha. É claro que essas coisas só aconteciam nos meus sonhos. Sonhos bonitos e coloridos, daqueles que nos fazem odiar o despertador e amar as horas de sono na cama.
Mas ele continuava sempre sem tirar os olhos de Rafaela. Quando estava com ela, focava os seus olhos apenas no rosto da patricinha. E quando não estavam juntos, seu olhar era sempre vago e perdido em algum lugar.
O que esse deus grego viu nela? Era a pergunta mais frequente que aparecia na minha mente. Não sabia mais o que fazer. Eu não iria roubar o namorado da menina, além do mais, eu sei o quanto é horrível ser traída. Mas, sonhar eu posso não é? Nada haveria de errado nisso, se eu não quisesse tanto que os sonhos se tornassem realidade... Meu coração sempre se atrai para os caras mais complicados. Mas como eu vou contraria-lo? Sou uma súdita do meu coração.

Era a última sexta-feira do mês de junho. Os alunos do 3º ano do ensino médio organizaram uma excurssão para aquele dia. A viajem seria para um clube no interior de Minas, o plano era ficarmos lá até terminar o fim de semana, dormiríamos em chalés.
Quatro ônibus saíram do centro de Belo Horizonte, carregados de alunos e de animação.
Nós chegamos no clube Acqua Club meia hora depois. Desembarcamos e nos acomodamos em nossos respectivos dormitórios.
Ninguém merece.
A primeira coisa que eu vi quando desci do ônibus, foi a Rafaela e o lindo deus grego com ela, de mãos dadas.
Até aquele dia eu não sabia qual era o nome dele. Não tive coragem de perguntar pra ninguém, muito menos pra ele.

Meu biquíni azul claro estampado já estava em meu corpo, e o meu corpo, já se dirigia à piscina. Débora e eu nos sentamos cada uma em uma das espreguiçadeiras que haviam ali em torno da piscina principal.
Deixamos nossos pertences por ali e caímos na água!
Foi tão divertido!
Jogamos água uma na outra, mergulhamos, fizemos caretas embaixo da água, viramos cambalhotas e muito mais!
- Amiga, você viu a Rafaela chorando? - Débora disse de repente.
- Que? A Rafaela? - fiquei surpresa com isso - A Rafaela chorando?
- É! Você não viu?
- Não! - respondi enquanto raciocinava o porquê daquela garota de nariz em pé estar chorando.
Uma colega da nossa sala respondeu as minhas perguntas:
- Parece que a Rafa e o Alê terminaram - ela disse em um sussurro - foi o que me disseram...
- Alê? - perguntei, confusa.
- Alexandre, o namorado dela, ué!
- Ah! Ele se chama Alexandre? - disfarcei o meu interesse.
- Sim, você não sabia? - ela ficou perplexa - O cara mais popular do colégio! Todo mundo conhece ele!
- Er... Acho que não estou bem informada...
MEU DEUS! ELES TERMINARAM DE VERDADE?
Isso não era um sonho né? Parece que não.
- Débora, vamos procurar o Alexandre? - puxei minha amiga de lado para lhe fazer essa pergunta, só ela sabia do meu amor platônico pelo (ex?) namorado da maior patricinha da escola.
- Vamos né? Fazer o quê? - ela riu e nós saímos da piscina.

Eu e a Debi andamos por praticamente todo o clube antes de encontrarmos o deus grego Alexandre.
Ele estava sentado na beira de uma piscina mais isolada. Os pés imersos na água, os olhos e os pensamentos pareciam voar longe.
- Vai lá falar com ele! - Débora me encorajou.
- Ai, será? - senti uma pontada de medo e de vergonha - e se ele não quiser conversar com ninguém?
- Ah, não custa nada tentar! - ela me empurrou de leve - Vai lá! Eu vou ficar escondida por aqui.
Eu ri. Ela parecia uma espiã numa missão de investigar o adversário.
- Anda! - ela quase gritou comigo, só não fez isso porque deveríamos permanecer imperceptíveis.
Eu fui andando devagar, pisando leve no chão.
As pernas e as mãos tremendo, o coração pulsando rápido. A ansiedade e a timidez em um conflito dentro de mim.
A cada passo que eu dava, mais próximo ele ficava.
Ele nem sequer sabia da minha existência, como eu conversaria com alguém que nem me conhece?
Mas se eu não tivesse coragem de falar, ele nunca me conheceria. E isso seria pior do que enfrentar a vergonha.
Me sentei ao seu lado e também coloquei os pés na água.
- Oi - eu disse, com a voz trêmula e insegura.
Ele me olhou. A expressão surpresa e insegura ao mesmo tempo.
- Oi - respondeu com um sorriso torto, educadamente.
- Quer conversar com uma garota que você nem faz ideia de quem é? - tentei ironizar a situação e fazê-lo um pouquinho mais feliz.
Deu certo. Ele riu fraquinho e disse:
- Eu sei quem você é! - olhou intensamente nos meus olhos, o que me fez estremecer levemente.
- Sério? Como? - ele me conhecia? Nem dava pra acreditar nisso!
- É claro que sim! - ele sorriu - você é a garota mais popular da escola! Quem não te conhece?
- Depois da Rafaela, pode até ser... - murmurei.
- Isso é o que ela pensa né? Mas não é verdade.
De repente me lembrei o porquê de estar ali.
- Posso te perguntar uma coisa? - falei com cuidado.
- Claro. - Alexandre disse com o tom de voz calmo e doce.
- Por que vocês terminaram?
Sua expressão foi de curiosa a serena.
- Porque eu não sentia mais o mesmo por ela - ele gesticulava enquanto dizia suas palavras - o meu amor por ela acabou, se é que um dia existiu - parou um instante e depois continuou - não dava mais pra aguentar! A Rafaela me controlava de todos os jeitos possíveis! Sem falar do ciúmes dela né? Eu não podia nem sequer dar um "oi" pras minhas amigas!
- Mas de qualquer jeito vocês vão voltar, não? - falei baixo.
- Dessa vez não. - ele suspirou - Até porque, estou de olho em outra garota. Mas até hoje ela não me deu nenhum tipo de atenção.
Avaliei a sua expressão e percebi que não era uma brincadeira. Alexandre estava realmente gostando de outra. E isso não parecia muito recente.
Ele olhou nos meus olhos. Corei em imaginar o que estava vendo dentro deles.
Esperança? Um amor disfarçado? Admiração?
Sim, era possível ver tudo isso dentro dos meus olhos.

Finalmente Melissa conseguiu se fazer notar para Alexandre. De agora em diante eles poderão ficar juntos? Mas, é isso mesmo que ele quer?

Nenhum comentário: