sábado, 6 de fevereiro de 2010

Invisível

Ninguém fez oposição.
A minha família entendeu o meu sofrimento e até apoiaram a minha decisão.
Todos compreenderam que eu precisava de novos ares e novas pessoas para conseguir reformatar a minha vida.
Mamãe ligou para meu irmão mais velho, o Marcelo.
Alto, bonito, pele branca, olhos verdes, cabelos castanhos, bem sucedido, boa condição, prestativo, carinhoso, simpático e carismático.
Ou seja, Cecelo sempre foi e sempre será o queridinho da casa.
Mas, com tantas qualidades, é impossível encontrar um defeito nele, e também, impossível não gostar dele à primeira vista.
Morava na capital de Minas Gerais.
Sempre dizia: "Belo Horizonte é o melhor lugar para se viver, o clima é ótimo, as pessoas são hospitaleiras e as acomodações são confortáveis"
Ninguém é doido de discordar.
Marcelo aceitou que eu fosse morar com ele e sua noiva.
- Já estava na hora da Mel sair desse fim de mundo...
Foi o que ele disse quando mamãe lhe perguntou o que achava da ideia.
Ele me matriculou em uma escola particular no Centro da cidade, prómixo ao prédio onde vivia com Aline, sua futura esposa.
Então, sem nenhum impedimento no caminho, estava decido. No próximo fim de semana, pegaria o ônibus na pequena estação da minha cidade e viajaria rumo à grande rodoviária de Belo Horizonte.

A despedida foi difícil, não posso negar. Ainda mais com a visita inesperada de Daniel. Ele pediu perdão, disse que nunca mais faria nada parecido, que se eu fosse embora ficaria maluco, que viver sem mim seria impossível e outras declarações, que não conseguiram fazer com que a minha vontade se movesse um só milímetro. Eu iria para Belo Horizonte e ponto final. Não me importava a condição dele depois disso.
Papai e mamãe se derramaram em lágrimas, sofrendo de saudades por antecipação, assim como eu.
Claúdia dissera que sentiria a minha falta, que me amava e que sempre se lembraria de mim. Isso foi diferente. Claúdia nunca tinha falado coisas tão bonitas assim. Ela sempre reclamou que eu roubara seu lugar de filha caçula, que ser a filha do meio era horrível, que eu sou mais bonita que ela, que meu corpo é mais bonito... Apesar disso tudo, eu sempre idolatrei a minha irmã. Pra mim, ela era a Miss Universo da minha vida. Sempre comandava as brincadeiras e sempre sabia a coisa certa para se vestir. Ela
comprou pra mim o primeiro sutiã, me deu o meu primeiro absorvente, me explicou as emoções do primeiro beijo, ou seja, Claúdia sempre estava presente nos melhores momentos da minha vida! Não sei o que seria de mim sem ela...

Cecelo me esperava ansioso. Fazia mais de seis meses que não nos víamos. Voltaríamos a viver na mesma casa, de uma forma diferente, mas isso era muito emocionante, para nós dois.
O pescoço esticado, olhando por cima das outras cabeças, me procurando. Nunca vou esquecer aquela cena. Ele mordia os lábios, como fazia sempre que ficava ansioso.
Quando levantei a mão para que ele me encontrasse e viesse me ajudar com as malas, seus olhos brilharam. Pude ver isso. E os meus também, tenho certeza.
Veio correndo e meu deu um abraço muito apertado. Como eu senti falta do meu irmãozão. Era como um pecado mortal ficar sem vê-lo tanto tempo, porque doía e fazia o coração ficar apertado.
Levamos minhas malas para o seu carro. Um carro sofisticado. Ponta de linha. O mais novo da categoria.
- Que carro em, Celo! - disse enquanto me sentava no banco do carona.
- Não é lindo? - ele sorriu - Pena que é da empresa.
- A Aline tá esperando a gente no apartamento de vocês? - perguntei à ele, eu gostava muito de Aline, apesar de que, no ínicio do namoro, eu senti ciúmes, assim como toda irmã.
- Tá sim! - sua voz estava empolgada - Ela está preparando um almoço especial só pra você!
- Mas, perai - minha voz ficou falsamente preocupada.
- Que foi? - ele desviou os olhos da direção pra me ver.
- Se o almoço é especialmente pra mim, eu vou ter que comer tudo sozinha? - fiz uma expressão falsa de medo - Eu já vou chegar na cidade engordando?!
Nós rimos da minha piadinha.
- Você não muda nunca mesmo... - Marcelo dissera em meio a risadas.

No resto daquele final de semana, Marcelo e Aline me levaram para ver e conhecer alguns pontos turísticos de Belo Horizonte.
Pedi para visitarmos em primeiro lugar, a Lagoa da Pampulha e a Igrejinha de São Francisco. Não acreditava que ainda não conhecia esses dois lugares. Fomos à Casa do Baile também, que fica ali na orla da lagoa.
Depois, passamos para outros pontos, como a Toca da Raposa, sede do time campeão de Minas Gerais, Cruzeiro! A tão famosa Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), uma das melhores faculdades do país, também teve o privilégio da nossa visita. Fomos à Praça da Estação, onde fica o Museu de Artes e Ofícios e à Praça da Liberdade.
Deixaríamos os outros lugares para a próxima. Rodamos a cidade inteira em apenas um domingo.

Na segunda-feira, já começaram as minhas aulas na escola nova. Eu não podia perder tempo, afinal, aquele ano, já era hora do vestibular.
Ainda não tinha uniformes, vesti uma calça jeans, uma camiseta verde-clara com a frase: "Be Happy" e meu tênis All-Star.
Nunca havia estudado em escola particular e não sabia o que esperar. Só sei que aconteceu definitivamente o contrário do que eu esperava.
Eu era o brinquedinho novo da galera. Me tornei a garota mais popular do colégio em apenas 5 minutos. Foi só dar alguns passos pelo pátio, que a grande maioria presente já me lançou vários olhares. Deviam estar pensando: "Quem é aquela menina sem uniforme?" "Uma novata nessa época do ano?".
Nunca fui tímida, mas no primeiro momento, fiquei com tanta vergonha de ser o centro das atenções, daquela escola gigantesca com mais de 3 mil alunos, só na parte da manhã.
Ouvi algumas pessoas sussurrando na sala em que fiquei, como se eu não pudesse escutar: "Cara, que sorte! A garota nova tá nossa sala, ela é gata!" - dei uma risadinha pra esse comentário, a auto-estima foi lá em cima - "É verdade que ela veio do interior?" "Aposto que essa daí vai ser a nova maior admirada dos meninos..." "Nossa, ela tem um corpão!"
Ainda bem que o que eu escutei sem querer foi melhor do que vieram falar frente a frente.
Uma garota com um monte de maquiagem na cara - um blush super exagerado -, usando sutiã de enchimento - dava pra perceber - e uma expressão antipática que parecia querer me entimidar, trazia duas capatazes de reboco, com as mesmas características, porém, as outras estavam mais atrás e com caras menos intimidadoras.
- Escuta aqui novata, não vai achando que só porque é nova e que todos te consideram o briquedo novo, que você vai ser a dona do pedaço não, tá? - ela não estava brincando, mas a minha vontade era rir da cara dela.
- Ué, mas eu não fiz nada! - dei um sorriso sarcástico - se a sua confiança ficou abalada, não é culpa minha.
A garota fez uma cara do tipo: "Como ela se atreve?"
- Daqui a pouco seus 5 minutos de fama passam, e nós vamos ver se você vai ser assim tão confiante. - sua cara de antipática ficou ainda mais insuportável, como se isso fosse possível.
- É esperar pra ver né? - eu insistia em levar pra brincadeira, não dava pra acreditar que essa era uma cena real, eu só havia visto em filmes americanos, até aquele dia.
Ela fez "Hum" pra minha frase, se virou e saiu, com suas duas cachorrinhas amestradas atrás.

Na segunda-feira, o 3º grau do ensino médio tinha aula à tarde.
Várias pessoas da minha turma vieram me comprimentar e falar comigo ao longo do dia, principalmente meninos. Diziam:
- Qualquer coisa é só chamar, viu?
- Precisando, pode contar comigo!
- Se ficar com dificuldade em acompanhar a matéria, me fala que eu te dou umas aulas!
Todos diziam quase a mesma coisa. Nenhum deles me despertou algum interesse assim, logo de cara, nenhum deu aquele "TCHAN!". Mas, também, estava cedo demais para saber quem ali era legal, e quem não valia a pena.
Na sala, me sentei ao lado de uma garota, a Débora, negra, seu cabelo preto, o corpo bonito e esguio. Era um pouco tímida no ínicio da aula, mas logo depois se abriu mais, e descobri que a sua história fora bem parecida com a minha. Ela também viera do interior, mas não porque queria fugir do ex-namorado e da ex-melhor amiga, mas porque queria estudar e se formar em uma boa faculdade, também entrou assim, no meio da etapa.
- Os meninos não fizeram esse fuzuê todo quando eu cheguei na escola - ela riu e eu a acompanhei.
Fiquei com ela na hora do recreio, nós conversamos sobre muitas e muitas coisas, afinal, tínhamos muitas coisas em comum.
- Que legal olha! - Débora sorriu, empolgada - Seu apelido é Mel, e os seus olhos são cor de mel!
Nós rimos juntas. Pude perceber que seríamos grandes amigas.

Na minha cidade, sempre fui uma das mais bonitas. É claro que lá a população não é muito grande e nem das mais variadas... Mas acho que minha pele quase branca, o meu cabelo longo, liso e castanho claro, meus olhos cor de mel e o meu corpo bonito, sempre chamaram um pouco mais a atenção. Assim como toda adolescente, fiquei preocupada se as garotas da cidade grande seriam muito mais bonitas que eu, se as minhas colegas de turma seriam milhares de vezes mais lindas e mais simpáticas. Acho que mamãe estava certa, "Você sempre será a mais bonita de todas, se acreditar nisso.". Era o que ela sempre dizia quando minha auto-estima estava lá embaixo. Que bom que posso acreditar nisso e me sentir confiante em mim mesma.
Afinal, competir com patricinhas de um colégio particular do centro da capital de Minas Gerais, era demais para uma caipirinha do interior.
Débora me falou algumas coisas sobre a garota que viera falar comigo no ínicio da aula, se chama Rafaela, namora um dos caras mais gatos da escola, é uma riquinha metida, pensa que todos tem que fazer o que ela quer.
No fim da aula, depois que a Dé foi embora, fiquei esperando meu irmão na porta da escola. Algumas crianças também eram liberadas de suas aulas enquanto os quase adultos do ensino médio passavam por ali.
Olhei para dentro do colégio, dali eu podia ver a escada, quem estava subindo e quem estava descendo. No momento em que eu estava olhando, subiu um garoto incrível, lindo, maravilhoso, perfeito!
Sabe a história do "TCHAN!" ?
Sim, dessa vez deu um TCHAN!
Nossa, mas aquele era o homem mais lindo que eu já vira em toda a minha vida! Ele ria de alguma coisa, uma de suas mãos estava atrás de seu corpo.
Sua pele, branca. Seus cabelos, negros. Seus olhos, azuis. Seu tamanho, alto. Seu corpo, forte e sarado. Seu sorriso, certinho e branquinho. Seu rosto, com covinhas e furo no queixo.
Nenhum defeito aparente. Até que eu entendesse o motivo daquela mão estar lá atrás.
Ela subiu. Os dois de mãos dadas. Rafaela e o deus grego.
Aquele era o namorado dela.
A tal de Rafaela namorava o cara mais lindo que eu já vira na minha vida inteira.
Isso não era uma baita injustiça? Aquela garota ultra maquiada, antipática e mal-educada, com um cara tão perfeito? Acho que ele merecia algo melhor, EU!
Os dois passaram por mim, quase em câmera lenta, rindo. Nem perceberam a minha presença.
Eu era invisível naquele momento. O único segundo do dia em que não desejei ser invisível.

Só faltava essa... Melissa vai começar a gostar do namorado de Rafaela? E o cara vai lhe dar algum tipo de atenção?
Não percam! ;D

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