quarta-feira, 20 de janeiro de 2010

Natural

Estávamos praticamente sozinhos ali, tirando alguns turistas que se distraíam em seus afazeres.

Diego se levantou enquanto dizia:
- Vem comigo.

Ele me guiou até o saguão do hotel. Parou no centro da recepção e olhou para todos os lados como que procurando alguém.

Eu fitava o seu rosto quando seus olhos pararam em um ponto fixo. Segui o olhar. Era uma garota, estava de costas, olhando através de uma das janelas de vidro do lobby, cabelo loiro, comprido, formava cachos nas pontas, quase chegava à sua cintura, usava um vestido sofisticado, estampado e tomara-que-caia, calçava uma sandália de salto ao mesmo nível do vestido.

Diego pôs a mão na base da minha coluna para me conduzir, me levava na direção da garota loira.

- Lu, essa aqui é a Cristina - ele disse ao nos aproximarmos da menina.

A loira se virou e olhou pra mim. Pela primeira vez eu pude ver o seu rosto.

Um rosto perfeito, nenhuma espinha, a pele branca e lisinha, sem maquiagem, a boca cor-de-rosa com os lábios cheios, o nariz arrebitado, os olhos castanho-claro, cor de mel, cílios longos, a sobrancelha na exata proporção para o rosto.

Ela poderia ser uma modelo sem nenhuma dificuldade.

O único defeito era nos olhos, estavam vermelhos e pareciam inchados, como se ela estivesse chorando.

- Oi Luciana, tudo bem? - ela disse e du um sorriso fraquinho - Diego me falou sobre você. E muito. - Cristina olhou para Diego e depois para mim novamente. - Nós somos namorados.

"Ele não falou muito sobre você, nada, aliás" eu pensei, ironicamente, é claro que não falaria isso.

Mas, no momento em que escutei a última frase, meu coração bateu mais rápido, as pálpebras se fecharam sem o meu comando, cambaleei para trás e a respiração ficou mais difícil. Eu me achei uma idiota com aquela reação. Estava quase desmaiando. E então comecei a tossir, uma crise de tosses provocada pela dificuldade da respiração.

Nunca passei tanta vergonha.

Quase desmaiei pelo namorado de outra, quase morri sem ar, e depois, ainda tossi até machucar a minha garganta.

Diego bateu de leve nas minhas costas.

- Tudo bem? - perguntou com certa preocupação na voz.

- N-Namorados? - disse quando parei de tossir, eu estava incrédula.

- Sim - Cristina respondeu, não identifiquei o tom de sua voz.

Me virei para Diego e perguntei indignada:

- Por que não me disse nada?

- Ei! Não me venha com essa! Você também não me disse nada!

- Pare de mudar de assunto! - aumentei o tom de voz.

- É a mesma situação Luciana, não estou mudando de assunto.

Tentei ignorar Diego, porque sentia muita raiva dele. E daí que eu fiz a mesma coisa? Isso não justifica a atitude dele!

Olhei para Cristina.

- Cristina, me desculpe, eu não sabia que vocês são namorados. Se soubesse não teria começado essa história toda. - falei.

- Pode me chamar de Cris, eu prefiro.

Assenti e dei um sorriso torto.

- Eu vou subir, estou com fome - minha voz parecia melancólica - Tchau.

Me virei e fui andando para o elevador, mas a minha verdadeira vontade era sair correndo, ou voando, só queria sair dali o mais rápido possível e ficar sozinha.

O elevador parecia demorar uma eternidade para chegar ao meu andar.

Quando finalmente chegou, eu sai dele correndo e empurrando. Não me importa se alguém me achou mal educada. Eu só queria entrar no quarto e me jogar na cama.


(A partir daqui Diego irá narrar a história)

Diego

Eu sei que devia ter contado para Luciana sobre a Cris. Mas eu não conseguia, o único pensamento que me vinha à cabeça era que, se eu falasse a verdade, ela seria apenas uma amiga, e não era isso que eu queria. Queria que a Luciana fosse a minha namorada. Queria nunca ter magoado ela. Seu jeito simples e divertido, sempre faz tudo em função dos outros, nunca pensa em si mesma em primeiro lugar, a única vez que fez isso foi quando ela fugiu e não disse nada a ninguém. Caramba, ela fugiu para se encontrar comigo? Nem dá para acreditar.

Mas, era preciso pensar no presente, no agora.

Nos meus 15 anos de vida, uma coisa eu entendi: nós, homens, não podemos ferir a auto-estima de uma garota. Fazer isso é como dar um tiro no próprio pé e detonar a relação.

Cristina estava ali, e nós ainda éramos namorados, para todos os efeitos.

- Ela é muito educada – Cris disse no momento em que Luciana entrou no elevador.

- É...

- E então Diego? Não vai falar nada?

Procurei a forma mais simples de falar o que se passava na minha cabeça.

- Sim – eu não sabia como começar, mas sabia da minha decisão – eu... Acho melhor a gente terminar.

Foi difícil dizer aquilo. Eu e a Cris temos uma história juntos, ela foi a minha primeira amiga aqui na Espanha, nos conhecemos desde a infância.

- É... – ela dizia com uma voz triste – acho que o clima já estava meio frio entre nós.

- Mas nós continuamos amigos, né?

- É claro! – ela pareceu enxugar uma lágrima – Como sempre!

- E pra sempre! – eu falei, animado, lhe pegando em um abraço apertado.

Uau! Ela estava quase do meu tamanho com aqueles saltos.


Ok.

Resolvida a situação.

Com a Cristina.

E com a Luciana?

Eu iria dar um jeito nisso na primeira oportunidade.

Mas não naquela hora. No almoço. Ali eu só precisava comer um hambúrguer e pensar um pouco em como fazer isso.


Luciana

Em respeito à situação – que todos já sabiam -, a minha família resolveram que não faríamos nenhum passeio naquele dia.

É claro que eles estavam perdendo um tempo precioso de diversão se preocupando comigo.

Não precisavam fazer isso por mim, eu queria mesmo é ficar sozinha.

Estava um belo dia, poucas nuvens no céu e um sol radiante. Depois do almoço meus pais e meu irmãozinho, Paulinho, foram curtir a piscina do hotel. Dudu se ofereceu para me fazer companhia, já que Rafael também resolvera descer, queria se despedir da paisagem e do clima da cidade, pois iria embora no dia seguinte.

Quando os outros se foram, Dudu puxou assunto comigo.

- Oh Lu, não fica triste não... Sabe de uma coisa? Você é muito nova pra ficar no meio dessas confusões de namorados, amores, paixões e essas coisas...

- Mas o que eu posso fazer se meu coração é precoce? – nós rimos da minha piadinha.

- Quer um conselho? Vai curtir a vida! – ele ergueu os braços, simulando uma explosão – é melhor que namorar! Digo isso por experiência própria.

Nós rimos novamente. Eu sabia dos perrengues que ele já passou por causa de namoradas... O pior foi quando Dudu tinha duas namoradas ao mesmo tempo e elas descobriram, foi uma loucura total!

Estava me sentindo bem melhor.

Irmão mais velho é tudo de bom!

Dei um abraço muito apertado nele, dizendo:

- Brigada, meu maninho lindo!

- Conta sempre comigo, Lu – ele sorriu e continuou – Agora me faz o favor de colocar um biquíni e ir pra piscina?

- Ta bom! Vou me trocar – olhei em volta buscando meu biquíni – se você quiser já pode descer sem mim.

- Então te espero lá, em?


Abri a porta do quarto, estava vestindo a parte de cima do meu biquíni cor-de-rosa, meu short jeans favorito, desfiado, Havaianas e uma bolsa de plástico que carregava itens práticos em uma piscina: filtro solar, óculos de sol, um pente, creme pro cabelo e outros.

Ao trancar a porta com o cartão magnético, olhei para a minha esquerda e lá estava ele.

Encostado na parede paralela, como um galã de novela.

Me lançou o seu sorriso perfeito. Feliz e espontâneo, que surgiu no seu rosto ao me ver.

Não resisti e sorri também, por ele estar ali, tão perto, mas ao mesmo tempo, tão longe.

Estiquei a mão em sua direção e ele estendeu a sua para mim. Demos alguns passos até que nossos dedos se tocassem. Segurei sua mão e o puxei para mim. As mãos encontraram o lugar certo, as minhas na sua nuca, e as dele na minha cintura. Os olhos não se mexeram um só segundo, sempre focados nos olhos um do outro.

Não havia nada que pudesse nos separar naquele momento. Nem os hóspedes que passavam, nem as camareiras e funcionários que andavam apressadamente pelo corredor. Era como se apenas nós dois existíssemos ali. Os outros que estavam presentes simplesmente desapareceram.

Não existia uma vista maravilhosa ou um pôr-do-sol perfeito, mas a situação era, sem dúvida nenhuma, muito melhor. Mais leve e sem culpas, natural.

Diego era só meu, e eu apenas dele.

Aquele era o nosso momento.


Luciana e Diego vão, finalmente, se acertar? Luciana saberá tomar a decisão certa em uma questão que diz respeito ao seu futuro?

Um comentário:

Leeti disse...

Final perfeito *-*