Acordei de manhã e todos já estavam de pé. Levantei a cabeça e olhei em volta. Rafael estava em frente a cômoda que havia ao pé da cama. Ele parecia arrumar uma mala agilmente.
O que estava acontecendo?
Ele iria embora só pelo acontecimento do dia anterior?
Eu me recusava a pensar sobre aquele dia. As lembranças faziam o meu coração latejar e pulsar rapidamente, pedindo que alguém o acalme. E eu sabia bem quem é que podia acalmá-lo. E não queria pensar no nome daquela pessoa.
Qual o problema dele? Nós andamos de mãos dadas durante – praticamente – todo o passeio! Éramos como um casal apaixonado! Ele fez com que eu me sentisse livre, como se pudesse fazer qualquer coisa que quisesse, sem me preocupar com as minhas obrigações, me fez ir contra os meus princípios de nunca, jamais, trair Rafael! Ele me fez mentir para o meu namorado e a minha família, e agora simplesmente, quer desistir? Aquele garoto me machucou por dentro, muito.
- Já acordou Lu? – Rafael me disse, vindo até mim e pegando a minha mão.
- Agora sim – sorri fraquinho.
- Eu... Eu queria falar com você. – Rafael pôs a mão livre no cotovelo, era o seu sinal de nervosismo – Troque de roupa e se arrume, eu estarei lá embaixo, na piscina, te esperando.
Estremeci. Isso seria doloroso, tanto para mim, quanto para ele.
- Tudo bem – eu disse enquanto me levantava para ir até o banheiro – alguns minutos.
- Estarei lá – ele me deu um beijo na bochecha. Mau sinal. Ele sempre se despedia com um selinho. Mas, dessa vez quase lhe agradeci, e se eu estivesse com mau-hálito matinal?
Rafael foi até a porta, ele iria me esperar lá, bem no lugar em que conheci o outro.
Depois de me arrumar e ficar apresentável, fui lentamente para a área recreativa. Eu queria pensar um pouco em, o que ele perguntaria e o que eu responderia. Mais uma vez, não seria fácil.
Finalmente, cheguei ao corredor que levava à grande porta de vidro. Olhei através do vidro, pude ver Rafael sentado em uma espreguiçadeira, e aquele garoto, sentado à beira da piscina, com os pés na água, os dois não estavam muito longe um do outro.
Fui até Rafael e me sentei na espreguiçadeira que havia ao lado da dele.
- Oi – eu disse baixinho. Ele fitava o horizonte, queria saber o que estava pensando.
- Ei Lu – Rafael tirou os olhos do horizonte e olhou para mim – quer começar? Ou eu mesmo começo?
- Eu começo – respirei fundo, procurando forças – quero te explicar, não queria mentir para você. Não sei o que deu em mim, nunca fiz essas coisas. Você sabe disso. Eu... Não sei. Nem sabia exatamente o que estava fazendo, não sabia o que estava sentindo por ele. Fiquei muito confusa.
Baixei o rosto, que estava corado, sentia vergonha, porque sabia que o outro também podia me ouvir.
- Por que você não me falou a verdade? – ele não tinha raiva de mim, estava triste ou frustrado. – eu entenderia Luciana! Você me conhece bem! Sabe que não eu iria brigar e gritar, eu iria deixar que fizesse a sua escolha, o que me importa, é a sua felicidade, eu nunca faria nada que te magoasse! Eu te amo demais para querer isso.
Nós dois começamos a chorar, eram lágrimas de desespero, de medo do que poderia ser o fim.
- Eu também te amo, Rafael! – falava com dificuldade, em meio a lágrimas e a tristeza. – pode parecer mentira, mas não é! Nunca quis te magoar, me sentia cada vez pior, à medida que as mentiras iam crescendo.
- Para, Lu. Não chora, por favor. Não gosto de ver você triste assim – Rafael foi para a minha espreguiçadeira e se sentou ao meu lado. Me apertou forte com seus braços, e eu me senti bem ali. A dor do dia anterior parecia desaparecer enquanto estava sendo acariciada por suas mãos delicadas e gentis.
Acho que a nossa DR havia chegado ao fim, só era preciso uma última cartada para que acabasse definitivamente.
- Você me perdoa? – saiu uma voz chorona e suplicante, como se eu implorasse.
- É claro que sim! – ele sorriu e me apertou ainda mais forte – mas, nós precisamos dar um tempo. Até que você se decida, pelo menos. Você está com dúvidas em relação a mim, está confusa, é melhor esperarmos – ele parou por um momento – mas, qualquer que seja a sua decisão, quero que saiba que irei entender, porque, antes de sermos namorados, somos amigos!
Ele sorriu mais uma vez e me cutucou na cintura com o dedão, tentando me fazer rir. E então eu ri.
Afinal, tudo havia dado certo. Mas, peraí, e aquela mala?
- Por que você estava arrumando a mala? Vai embora por minha causa? Não é preciso, eu não vou atrapalhar, essa viajem também é sua, você deve aproveitar!
- Não vou embora para ficar longe de você Lu! – uma expressão de surpresa passou por seu rosto – é que... Ontem, quando estávamos passeando no porto de Almería, eu recebi um telefonema do Brasil, era a minha mãe. Ela estava chorando, e me pediu para voltar, pela minha avó, que está no hospital. Parece que ela não vai aguentar...
Rafael começou a chorar. Eu soltei um de meus braços para acariciá-lo. Era um momento difícil.
Ele enxugou as próprias lágrimas com a manga de sua blusa de manga comprida, branca com detalhes em preto.
- Tudo bem – ele respirou fundo – um dia isso teria que acontecer...
- Vamos subir? Não quer ligar para sua mãe e pedir mais notícias?
- Eu vou. Mas você fica. – Rafael olhou pro lado e apontou para o garoto com o queixo – ainda tem assuntos pendentes.
Eu segui o seu olhar, e o outro ainda estava ali, havia escutado toda a nossa conversa, estava balançando os pés imersos na água, fingindo desinteresse.
Rafael se foi. Agora eu teria de vencer outra batalha. Eu estava magoada e teria de enfrentar isso.
Tirei os meus tênis e enfiei minhas meias dentro deles, dobrei a barra da minha calças jeans até o joelho. Fui até a beira da piscina e me sentei ao lado dele. Resolvi começar da mesma maneira.
- Oi – balancei os pés na água, no mesmo ritmo que os dele.
- E aí? – ele disse, sem me olhar, fitando a água.
- Quer conversar comigo? – era melhor que eu fosse direto ao ponto, assim, poupava constrangimentos.
- Quero – ele finalmente tirou os olhos da água e olhou para mim. – que tal começarmos falando a verdade?
- Certo – respirei fundo – aquele que estava ali comigo, era o Rafael, o meu namorado.
- Ah, o Rafael? Eu sei. Nós conversamos.
- O que? Mas como sabiam que... Ân? – não entendi, fiquei confusa mais uma vez. Achei que um nem sabia da existência do outro!
- Lu, primeira coisa, eu vi vocês de mãos dadas, em uma noite, passando pelo lobby, e outra, ele me viu com você ontem, quase ninguém que estava naquela pequena multidão prestou atenção em mim, mas pode ter certeza que ele reparou no garoto que veio com o braço sobre os seus ombros e que apertou a sua mão – ele parou por um instante – ah! E ele viu também quando você se esticou toda para me avistar, sim, é claro. – deu uma risadinha e continuou – Rafael veio falar comigo. Queria saber o porquê de tanta intimidade, mas eu lhe disse que éramos amigos, não queria complicar mais as coisas para você... Ele falou que vocês eram namorados e que eu devia lhe dar algumas explicações. Eu disse tudo, menos a parte do... ãn, beijo.
- Tudo bem, obrigada por não querer me complicar – eu olhava para os meus pés, imersos. – mas... Pode me dizer o motivo de pedir desculpas por me beijar? Não viu que eu também queria? – parei e murmurei – acho que era você que não queria mesmo...
- Você está enganada. Eu queria tanto quanto você. Ou mais que isso. – ele suspirou – mas esse é o problema Lu! Eu não devia querer! – ele pôs a mão na testa e seu rosto se estampou na mesma face de angústia que eu vi no dia anterior. Respirou fundo por vários segundos e depois continuou – Bem, vamos às verdades. Vou te mostrar a minha verdade, já que agora também já sei a sua verdade.
O que ele estava querendo dizer com isso?
Diego, Diego, Diego – agora não me causava dor, pronunciar o seu nome - eu já sabia que ele queria sim me beijar, não havia me rejeitado. Ele tinha um problema ou uma verdade pessoal, e eu iria saber qual era o seu motivo, assim que se empenhasse em me dizer. Ou mostrar?
O que Diego mostrará a Luciana? Qual é a sua verdade? Agora que Rafael vai voltar ao Brasil, Luciana estará livre para investir em Diego sem culpa?
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