- Meu nome é Diego, e o seu? - ele abriu abriu um sorriso perfeito no rosto.
- Luciana - eu também abri um sorriso.
Naquela hora, o meu estômago roncou. Eu estava com fome. Não tinha tomado café-da-manhã, e já estava na hora do almoço.
- Você está com fome? - seu sorriso desabou. Ele estava preocupado comigo? - quer que eu te leve pra comer alguma coisa?
- Eu tô com fome sim, mas você vai me levar aonde?
- Na cozinha do hotel, vamos?
- Na cozinha? - fiquei confusa, porque não no restaurante?
- É. Ah, dexa eu te explicar. Eu trabalho aqui, só meio expediente. O meu pai é o chef do restaurante.
- Sério? Deve ser muito legal trabalhar em um hotel.
- É muito legal - ele sorriu - principalmente quando encontro algumas meninas lindas, assim como você.
- Ficar hospedada em um hotel que tenha meninos lindos, também é ótimo.
O que era aquilo? O meu namorado dormia lá no quarto, e eu estava paquerando um garoto que mal conhecia? Que loucura! Diego estava me deixando confusa.
- Venha - ele puxou meu braço e depois o soltou, eu estremeci com o seu toque - o hamburguer que eu faço é o melhor da Europa inteira!
- AAH tá, acredito!
- Você vai ver! - nós rimos levemente.
Eu percebi. Estava me sentindo livre. A muito tempo, nem sequer olho para outros rapazes. Não ligava mais para os outros. O único que me importava era Rafael. Mas isso estava mudando, por causa de Diego.
Chegamos na cozinha do hotel. Era muito sofisticada. Tinha cinco fogões industriais, quatro grandes geladeiras de inox, bancadas de um mármore escuro, uma parede de azulejos brancos e muitas pessoas, vestidas com aventais e roupas brancos, trabalhando agilmente. Bem lá no fundo, atrás de uma bancada, havia uma pequena mesa retangular, de mármore escuro, que suportava apenas duas pessoas, era acompanhada de duas cadeiras brancas.
Diego me levou até aquela pequena mesa e arrastou a cadeira para mim. Eu agradeci e ele me pediu para esperar. Foi até um dos fogões indstriais daquela cozinha gigante, onde tinha um homem cozinhando, Diego lhe deu um tapinha as costas e disse alguma coisa pra ele. Depois voltou e se sentou na cadeira, à minha frente. Quem era aquele homem e o que Diego falou com ele?
- Quem é? - perguntei
- Aquele é o meu pai, ele vai fazer dois hamburgueres, e eu vou montar, colocar alface, tomate, essas coisas - ele deu de ombros e me olhou.
- Achei que você ia fazer o hamburguer pra mim - meus olhos se estreitaram, fingindo decepção - se o seu pai for cozinhar, não vale.
Ele riu alto. Não entendi. Nem foi TÃO engraçado assim. Aquele garoto estava me deixando confusa.
- Qual é o problema, Luciana?
- An? Não entendi.
- Você parece meio indecisa - ele disse, com cuidado -, ou culpada. Não sei. Acho que não está agindo como realmente é.
- Quem é você pra dizer que eu não estou sendo sincera? - meu tom de voz se elevou.
- Ei, calma! Só disse que você está agindo com cuidado, pra não se sentir culpada, ou algo assim - ele ergueu as mãos com as palmas viradas para frente, se rendendo - Puxa, nervosinha em?
Como ele conseguiu perceber isso? Não dava pra entender! Eu deixei transparecer que eu me sentia culpada por querer trair o meu namorado? Ele era mais perceptivo do que eu imaginava.
- Prontinho, filho! - uma voz grossa disse, colocando um prato branco com os dois hamburgueres sobre a bancada atrás da mesa - depois você vai me contar tudo em? - ele piscou para Diego, sorrindo. Cúmplices.
Diego revirou os olhos. Ele era muito parecido com o pai, os olhos negros, a pele pouco morena, o jeito, o sorriso caloroso e perfeito. Um chef de cozinha, ligeiramente acima do peso, com um chapéu de mestre da cozinha e roupas brancas sob um avental longo e branco, muito bonito. Diego era a cópia fiel e mais jovem do pai.
Enquanto o adulto saía, Diego se levantou e começou a preparar os hamburgueres. Eu o segui, observando quando ele pegou o pão em um saquinho que estava por perto.
Fiquei curiosa sobre uma coisa.
- Vocês moram aqui, na Espanha, ou é um trabalho de férias?
Ele olhou pra mim rapidamente, e sorriu satisfeito. Acho que gostava por eu estar interessada na sua vida.
- Nós moramos aqui.
- Não gostam mais dos brasileiros? - eu ri da minha própria brincadeira. E o seu sorriso se alargou um pouco mais, como se isso fosse possível.
- Não é isso. Meu pai é brasileiro, mas tem nacionalidade espanhola, assim como eu. Minha mãe nasceu aqui - Diego me explicava, enquanto preparava nosso almoço com habilidade - eles se conheceram no Brasil, mamãe fazia uma viajem de férias à algumas cidades históricas de Minas Gerais. Quando estava grávida de mim, ela e papai foram ao Brasil, para que eu nascesse brasileiro e mineiro - ele parou um momento e ergueu o punho esquerdo -, com muito orgulho!
Eu sorri, ainda bem que ele tem orgulho de ser brasileiro, assim eu não me sentiria ofendida, sem motivo, eu sei. Mas eu não gosto que ofendam o meu país. Eu gosto muito de lá, apesar de gostar muito da Espanha também.
- A sua mãe também trabalha aqui?
- Não, na verdade, a minha mãe morreu quando eu tinha 3 anos.
- Ah, eu não sabia, me desculpe.
- Tudo bem - ele olhou pra mim, e depois para os hamburgueres, agora prontos.
- Já acabou?
- Está preparada para o melhor hamburguer da sua vida?
- Vamos ver se isso é verdade...
Depois de comermos os hamburgueres, ele me falou um pouco mais da sua vida. Onde estudava, onde morava, onde já foi ou pra onde viajou, as pessoas mais legais que conheceu e muito mais. Eu também lhe falei da minha vida. Não tive coragem de falar sobre Rafael. E se ele não quisesse mais falar comigo?
Estávamos sentados, cada um em uma espreguiçadeira, próximos a piscina.
Então me lembrei de uma coisa.
- Por que você estava correndo quando esbarrou em mim?
- Ah! Meu pai tinha me mandado entregar alguma coisa, que eu não lembro o que que era, para um dos hóspedes, e eu estava voltando correndo para a cozinha. Assim que eu dissesse que já havia entregado, ele iria me dispensar.
- Entendi. Ah, outra coisa, por que você disse que seu pai lhe daria uma bronca?
- Por que meu pai não gosta que eu me envolva com os hóspedes.
- Tarde demais - murmurei pra mim mesma.
- Sim, tarde demais pra me lembrar disso - caramba. Ele percebe tudo.
- Acho melhor eu subir, devem estar preocupados comigo - já eram quase duas da tarde e nenhum deles havia me procurado.
- É, acho que sim - ele murchou um pouquinho ao dizer isso - ainda vamos nos encontrar?
- Talvez, sim. Eu estarei por aqui nas próximas duas semanas.
- Tudo bem então.
- Tchau - eu me levantei e me inclinei para ele, lhe dando um abraço.
- Tchau. Foi ótimo te conhecer.
- Eu também amei te conhecer - não consegui disfarçar a minha empolgação.
Quando cheguei ao quarto, todos estavam acordados. Dispersos em algumas distrações. Vendo televisão. Lendo revistas. Conversando. Rafael estava ali. Senti uma onda de culpa me percorrer, da cabeça aos pés. Eu não fiz nada demais. Por que tanta culpa? Pelo que eu ainda quero fazer?
Ele sorriu quando me viu. Deu um tapinha no sofá caramelo, no assento ao seu lado. Eu fui até ele e me sentei. Ele me deu um selinho na boca. Meu coração disparou. Ainda bem que ainda tinha essa reação. Ele me olhou nos olhos.
- Aonde você estava? - perguntou, despreocupadamente.
E agora? O que eu iria dizer a ele? Nunca escondi nenhuma vírgula da minha vida para Rafael. Sempre lhe contei tudo. Mentir para ele era uma ideia que não me agradava. Mas o que mais eu poderia fazer? Não queria ferir os seus sentimentos. Como poderia falar: "eu estava lá embaixo, almoçando, conversando e rindo com um garoto que eu mal conheço, e que me sinto extremamente atraída por ele" ?
Era insuportável a ideia de mentir pra ele.
Mas que outra solução eu tinha?
Luciana terá que se virar para contar pra Rafael. Ele aceitará a sua explicação? Luciana se encontrará com Diego novamente?
Um triângulo amoroso está formado.
Nenhum comentário:
Postar um comentário