quarta-feira, 2 de dezembro de 2009

Um desconhecido

Desembarcamos do avião em Madrid. Fazia frio. Que bom que trouxemos agasalhos o suficiente. Eu congelaria se não tivesse trocado a bermuda jeans e a camiseta azul-claro, que vestia ao sair do Rio, por uma calça, duas blusas de mangas compridas, uma jaqueta preta e botas.
Nós fomos para a sala de espera, onde quem fazia escalas aguardava. Um homem de uma ótima aparência, loiro, olhos verdes e uma roupa azul-marinho que ofuscava os seus olhos claros, nos guiou ao lugar certo.
- Buenas noches. - o homem loiro falou um pouco mais alto que um sussurro, enquanto cambaleávamos feito zumbis até o local - hablan mi idioma?
- Sí - minha mãe respondeu - ¿A qué hora salimos a Almería?
- En una hora - ele disse quando chegamos - Espero que se sienta cómodo. (espero que fiquem confortáveis)
- Gracias.
A sala de espera era bem confortável, tinha as paredes de um tom azul-bebê, existiam dois sofás bege-claro. Em cima de uma mesa de centro de madeira escura, havia uma garrafa de café, uma jarra de água e outra de suco de laranja, uma bandeja com diversos tipos de aperitivos, biscoitos e algumas frutas, sob a mesa tinha um tapete sofisticado com uma cor de cereja, as janelas eram brancas e cobertas por persianas.
Eu e todos os outros desmoronamos nos sofás, cansados demais para pensar em olhar pela janela ou comer um daqueles aperitivos bastante convidativos.
Parecia ter se passado um segundo, do momento em que cochilamos nos sofas, até quando o homem loiro e jovem aparecesse novamente. Com um pigarro, nos arrancou de um sono breve.
- Perdón, pero el vuelo se llega en diez minutos (desculpe, mas o voo chegará em dez minutos) - ele parecia hesitante em nos incomodar - Ustedes deben estar listo. (vocês devem estar prontos)
- Gracias por nos llamar - Dudu agradeceu, e lhe deu um aperto de mãos
O homem assentiu e sorriu torto.
- Unirse a mí, por favor (me acompanhem, por favor) - disse, gesticulando para o corredor.
Nós fomos com ele e logo chegamos ao local de embarque.
A Will Free resolvera tudo por nós, viajamos na Classe A do avião! Não pensei que era assim, mas a agência realmente estava bancando tudo, das passagens de avião, até o que comeríamos. Em Almería, ficaríamos em um hotel luxuoso, o que não falta naquela cidade.
Eu não fazia ideia de que horas eram. O dia começava a despontar no horizonte. Então deviam ser umas seis da manhã. Entramos no avião e nos acomodamos nas poltronas que nos eram de direito. O piloto deu os seus recados. E então decolamos.
Decolei para o lugar que mais quis estar no mundo. O lugar que sonhei tantas vezes, vi tantas fotos... que sempre quis conhecer!
De Madrid a Almería são 412 km, o voo duraria apenas 35 minutos! Foi o que o piloto disse, mas que também poderia sofrer atrasos dependendo da climatologia.

Nenhum de nós conseguia domir ou sequer cochilar, devido ao nosso sentimento de ansiedade e expectativa, de, primeiro, ver o papai, e segundo, de finalmente conhecer Almería! Quando faríamos uma viajem como essa novamente? Eu não sabia. Mas ficaria feliz de qualquer jeito, mesmo que aquela fosse a única viajem que eu faria na vida.
Os 35 minutos passaram e ainda não tínhamos chegado, as aeromoças deram o recado que atrasaríamos 2 minutos, por termos decolado 2 minutos depois da hora prevista. Acho que essas coisas de avião são assim mesmo, não entendo muito, mas sei que os horários devem ser bem marcados, imagina se dois aviões fossem pousar na mesma hora?

Saímos do avião às pressas, não dava mais para esperar. Um outro homem, não tão bonito, de cabelos grisalhos e olhos castanhos, nos levou ao lugar onde deveríamos buscar nossas malas. Havia uma esteira preta, as bagagens ficavam ali, rodando, esperando que os seus donos as pegassem. Em frente a esteira, tinha uma grande porta de vidro, com abertura de sensor, automática. Além do vidro, pude perceber os olhares de curiosos, que esperavam ansiosamente por seus parentes e amigos, que também desembarcaram, junto comigo, minha família e o meu namorado.
Pegamos nossas malas, passamos pela porta de vidro e enfrentamos o corredor de gente que aguardava. Eu estava com o pescoço esticado, procurando pela única pessoa que eu queria ver naquele momento.
E o vi.
Ele também estava com o pescoço esticado, procurando nossos rostos familiares.
Meu pai continuava o mesmo, cabelos castanhos em um corte normal para um pai de família, a barriga fazendo um leve morro na camisa, os óculos de grau com o tipo armações que ele sempre usara e o sorriso enorme no rosto, um sorriso familiar, de quando ele está, sinceramente, muito feliz. Ele mudara um pouco, é verdade, um pouco menos de cabelos na cabeça, e um pouco mais de barriga por baixo da camisa.
Eu, Dudu e Paulinho, corremos até ele, largando as malas no chão, enquanto mamãe e Rafael ficaram para trás, para nos dar mais espaço.
Demos um abraço coletivo e apertado no papai. As lágrimas desciam de meus olhos, não pude ver se eles também choravam, fiquei com a cabeça enterrada entre a barriga e o peito do meu pai. Dava pra ouvir seu coração pulsando.
Ficamos os quatro abraçados por algum tempo, quando Rafael e minha mãe nos abraçaram também, depois de pegarem as malas deixadas pelo caminho, no momento de euforia.
Rafael abraçou os meus ombros, apertando um pouco mais forte quando eu soluçava. Não sei quanto tempo ficamos ali, os seis, naquele abraço, só sei que foi pouco, para a quantidade de saudades que eu sentia, não bastou.
- Que bom ter vocês aqui! - meu pai disse, com um pouco de esforço. Ele também estava chorando.
Papai nos levou até a sua caminhonete, no estacionamento, ajudou a colocar as malas na carroceria, e gesticulou para que mamãe sentasse ao seu lado, e as "crianças" se sentassem na parte de trás da cabine dupla.
Ele nos levou até o hotel em que ficaríamos hospedados. Mamãe convenceu a companhia de turismo que realizou nosso sonho, a deixar que meu pai também ficasse no hotel.
Enquanto a cidade se passou nas janelas da caminhonete, pude perceber que era um lugar muito bonito. Uma cidade que tem uma grande parte de sua economia no turismo.
Estava cansada de tanto viajar, assim como os outros. Assumimos nosso quarto do hotel, fomos todos dormir. O relógio biológico do nosso organismo queria sono naquele momento. Não pensei que era tão difícil resistir. Achei que era frescura. Fuso horário confunde o nosso corpo.
Acordei meio-dia. Todos ainda domiam. Até o meu pai, que tinha dito que trabalhara a noite toda em uma pesquisa em uma área não tão longe do hotel.
Tomei um banho, estava com o cheiro de poltrona de avião até agora no meu corpo. Lavei os cabelos. Vesti uma roupa normal, tentando não parecer uma turista, uma calça jeans e uma blusa com mangas compridas, verde-limão, por cima, coloquei um casaco de algodão preto e os meus tênis, bons e velhos companheiros. Sequei as madeixas com um secador do hotel. Deixei um recado sobre a minha cama, para saberem onde me encontrar.
Desci para o lobby, onde tinha sofás sofisticados e balcões de madeira, bem tradicional e com uma pitada de modernismo. O lobby tinha um curto corredor com uma grande porta de vidro no fim. Essa porta se abria para a grande área recreativa.
Uma piscina imensa, cercada de espreguiçadeiras e mesinhas com guarda-sol. Não tinha ninguém na piscina, mas tinham muitas pessoas sentadas envolta dela, conversando e rindo. Todos ali pareciam turistas.
Eu andava calmamente em volta da piscina. Pensando sobrea vida. Viajando. Se alguém quisesse falar comigo, teria que azer algum esforço. Eu não acordava dos pensamentos muito fácil.
Caramba. O Rafael me ama de verdade. Quem sairia do seu país e se deslocaria para o exterior só para satisfazer a vontade da namorada mimada que não suporta ficar longe do namorado? Só ele mesmo.


Às vezes eu fico lembrando de como nos conhecemos. Eu estava na fila da cantina da escola, esperando pra pegar o meu salgado preferido, um kibe. Eu fiquei vigiando os kibes, para ter certeza de que não acabariam antes de chegar a minha vez. Até que eles foram diminuido, diminuindo e... Acabaram! Eu disse: "não é possível! Acabaram os MEUS kibes!" Estava em meu conflito pessoal, de raiva, era frescura, mas dá um desconto, eu tava na TPM. Eu sai da fila e me sentei em um dos bancos coloridos, cruzei os braços e fiz cara de "ninguém me ama mesmo". Fitei o chão, esperando que o sinal tocasse logo.
Enfim, eu senti que alguém tinha sentado ao meu lado, no banco de concreto. Ele disse:
- Você quer um kibe? - vi um garoto lindo, que me era familiar. Eu já tinha comentado sobre ele com minhas amigas. Ele estava com dois kibes na mão - Acho que não vou querer os dois.
- Ah, eu quero! - eu sorri e ele sorriu também - como você sabe que eu gosto de kibe?
- Eu percebi que... não se sinta ofendida tá? Mas eu observei, que você compra kibe todos os dias, então presumi que você gosta de kibes.
Eu ri da situação. Ele tinha mesmo falado comigo por causa de um kibe? Ele riu junto comigo, um riso diferente, natural. Soou bem aos meus ouvidos. Eu realmente gostei daquele som.
- E aí, como você se chama? - eu perguntei, entre uma mordida e outra no meu kibe.
- Rafael, mas o seu nome eu já sei, Luciana.
- Ah! Você sabe? Então você estava mesmo me observando né?
- É claro, você é tão linda e espontânea que eu não pude deixar de me interessar - ele deu de ombros, como se fosse algo óbvio.

E então, eu senti um esbarrão. Me arrancando das minhas lindas lembranças, tive vontade de xingar aquele que me fez acordar.
Era um garoto, deveria ter a mesma idade que eu. Ele esbarrou em mim enquanto corria com pressa, eu quase caí na piscina, mas então ele me puxou e eu trombei contra o seu peito, ele não aguentou o peso e cambaleoou para trás até cair no chão, me puxando junto. Eu caí em cima dele, vendo seus olhos arregalados enquanto ele me olhava, e disse um "Ai!", que saiu como um gemido.
- Desculpa! - ele disse, muito constrangido. - Quer dizer, perdón!
- Estoy bien. - perai, ele disse desculpa? - Ei, você fala português?
- Falo! E você também?
- Sim, sou brasileira.
- Ah! eu também! - ele olhou para baixo e depois para meus olhos novamente - Mas você poderia me dar uma licencinha? Antes que o meu pai me veja e me dê uma bronca.
- Desculpa! Nem me toquei. - eu ri da minha falta de percepção, como alguém não notaria que estava no chão, deitada sobre um garoto desconhecido?
Nós nos levantamos. Eu não posso negar, aquele era o garoto mais lindo que já tinha conhecido na vida, até mais que o Rafael. A pele um pouco morena, o cabelo castanho tinha cachinhos como os do Caio Castro, um sorriso perfeito que se abriu em forma de desculpas, os olhos negros e um corpo, muito, mas muito bonito. Ele era o tipo de cara que, se eu visse na rua, pararia e pediria o telefone.
Eu senti um impulso enorme de conhecê-lo.
Por que eu queria conhecê-lo? Você tem namorado! Você tem namorado! Uma voz irritante me alertava dentro da minha cabeça.
- Qual é o seu nome? - perguntei, com uma ansiedade exagerada.


Culpa? Arrependimento? Luciana será capaz de fazer algo pelas costas de Rafael?

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