- Eu? - não consegui disfarçar o nervosismo - Er... Eu tava lá na área recreativa, depois fiquei com fome e fui na cozinha, me fizeram um hamburguer - fizeram, sujeito indeterminado, não especifica quem fez a ação.
Eu não estava mentindo. Estava omitindo. Isso é horrível. Aquela situação fora a pior que eu já havia vivido.
- Ah! - Rafael respondeu, sem demonstrar muito interesse e voltou os olhos para o jogo de futebol, entre times famosos da Espanha, que passava na televisão.
- Vocês almoçaram aqui no quarto? - estava aflita, e se ele tivesse descido e me visto com Diego? Ele seria altruísta o bastante pra me perdoar?
- Almoçamos. Só você teve disposição de descer - ele deu um sorriso torto.
Eu sorri torto também. Eu estava muito nervosa para ficar ali com ele, me levantei e procurei pelo meu pai.
O quarto em que nos hospedamos tinha uma divisão, era uma grande porta de madeira escura que transformava um único quarto em dois. No lado que em dormi, existiam duas camas de solteiros e uma de casal, Juninho e eu dormimos na cama de casal, Rafael e Eduardo, cada um em uma cama de solteiro. Do outro lado da enorme porta, havia uma cama de casal king size, onde papai e mamãe ficaram.
Meu pai lia um livro, deitado sobre a cama. Quando me viu, largou o livro, abriu os braços, e também um sorriso contagiante. Eu fui até ele e lhe dei um abraço apertado. Era tão bom ter meu pai por perto. Eu não me sentia mais culpada. Me sentia feliz. O peso que eu sentia pelas minhas omissões - tanto para Rafael, quanto para Diego - desaparecia do meu coração, enquanto estava ali, aquecida pelo amor de meu pai, aquele pra quem eu nunca mentira - o único.
Naquela noite, saímos para jantar, não no restaurante do hotel, mas no restaurante preferido de meu pai, próximo ao hotel.
Enquanto pássavamos pelo lobby do hotel, eu e Rafael de mãos dadas, olhei em volta, com esperanças de ver aquele que balançou tanto meu coração, de ver as covinhas se abrirem junto com seu sorriso perfeito de modelo, as mãos mexendo nos cachinhos de seu cabelo, um sinal de ansiedade ou nervosismo, a sua expressão de surpresa ao me ver de mãos dadas com um garoto, as palavras que saíriam de sua boca, eu podia até escutá-las: "é por isso que você não estava sendo você mesma? por causa dele?". Diego diria exatamente essas palavras, apontando com o queixo para o meu namorado. Eu o conhecia pouco, mas o bastante para saber que faria isso. Diego é muito transparente, fala o que pensa. Muito sincero. Isso até me incomodou alguma vez, mas só foi olhar os seus olhos que pude ver que não falara por mal. Ele era muito perceptivo também.
Balancei a cabeça para varrer aqueles pensamentos. Não podia ficar pensando em Diego. Eu devia ser fiel ao meu namorado, até mesmo em pensamentos. Mas o que exatamente estava sentindo por Diego? Não sabia explicar. Era uma atração louca ou amor a primeira vista? A única coisa que sei, é que ele me deixava muito confusa.
Depois de comermos um jantar da comida típica da Espanha - eu comi um prato chamado Gazpacho, é uma sopa gelada, feita de pão, alho, tomates, pepinos e pimentões. Achei ótima! -, retornamos ao hotel por volta da nove da noite.
Quando todos iam subir no elevador para irem para o quarto, eu disse:
- An... Acho que vou ficar aqui em baixo, queria ver o céu de Almeria a noite.
- Tudo bem - meu pai falou - mas não suba muito tarde, amanhã iremos fazer um passeio e quero todos muito bem dispostos.
Meu pai havia conseguido férias na empresa, pelo tempo em que ficássemos na Espanha. Ele seria todo nosso por duas semanas.
- Eu vou descansar, se não se importar. Achei horrível despediçar o tempo dormindo hoje - Rafael abriu um sorriso, e o máximo que eu consegui retribuir fora um sorriso torto.
- Até mais tarde - murmurei enquanto a porta do elevador se fechava.
A piscina estava ali, refletindo a imagem da lua na água. Me debrucei sobre a beirada que cercava a área recreativa. Olhei para o céu. Existiam estrelas, mesmo que poucas, que eram ofuscadas pelas luzes da cidade. Tinham outras pessoas ali. Falavam línguas diferentes da minha. Algumas eu não consegui identificar.
Eu estava esperando por ele.
Sim, estava. Admiti pra mim mesma. Eu estava apaixonada. Mesmo que o tivesse conhecido naquele mesmo dia. Sim, estava. Repeti na minha mente.
Me senti mais leve. Sem culpa. Era algo que eu não podia controlar. Rafael entenderia. Mas, eu não podia controlar, poderia evitar. Evitar encontrá-lo. Como fazer isso? Não conseguiria.
Estava pensando sobre isso, quando ouvi uma voz linda. Me virei de imediato e olhei em seus olhos.
- Oi - ele disse, se debruçando na beirada ao meu lado.
- Oi - respondi, com a voz trêmula.
- Por que está aqui sozinha?
Me virei de volta e também me debruçei. Nós olhávamos o céu de poucas estrelas.
- Não estou sozinha - falei, parecia mais com uma declaração de amor do que com uma resposta normal.
- Não mais - ele sorriu e desviou o olhar para mim - está com frio?
- Acho que sim. Meus sentidos estão confusos - sentidos ou sentimentos?
- Você está tremendo! Não percebeu? - sua voz ficou preocupada. Tirou o casaco cinza-escuro que vestia e o colocou sobre os meus ombros.
- Obrigada - o casaco exalava um aroma muito, mas muito bom mesmo. Respirei fundo, absorvendo aquele cheiro delicioso que ele tinha. Um perfume que devia ser proibido, de tão agradável que era.
- Esse perfume só pode ser encontrado aqui na Espanha. Não existe em nenhum outro lugar do mundo
- O que...? Como você...? - olhei pra ele, assustada. Ele não podia sabe o meu segredo.
- Ah, é que as garotas pra quem eu empresto o meu casaco sempre tem a mesma reação - ele riu. Um riso que mais parecia uma sinfonia de Bethoven, para mim. Era o som mais bonito que já ouvira na vida, que me fez estremecer, não de frio, mas de algo diferente, que eu não podia explicar. Mas, como assim as garotas?
- Que garotas? - meus olhos se estreitaram.
- É brincadeira! - ele riu novamente, me fazendo estremecer pela segunda vez.
Ele me viu tremendo e entendeu errado. Passou o braço esquerdo pelo meu ombro, a mão fazendo carinho em minha clavícula. A sua mão direita posou sobre a minha. Se ele fosse reagir assim toda vez, acho que podia entender errado quantas vezes quisesse.
Olhamos as estrelas no céu. Abraçados. Como um casal. Um casal de namorados.
Conversávamos distraidamente, e eu não percebia que o tempo passara. Olhei no relógio que ganhara de Rafael no Natal, senti uma pontada de culpa, que se dissolveu com o calor dos braços de Diego. Eram quase meia-noite.
Caramba! Quase meia-noite!
Como o tempo pode voar assim tão rápido e inperceptível?
Meu celular vibrou no bolso da minha calça jeans. Eu o peguei com a mão livre e olhei a tela. Nova mensagem, dizia. Abri a mensagem. Era do meu namorado.
"Lu, que demora! Vou descer para te encontrar."
NÃO! Ele estava descendo!
- O que tá dizendo? O que te deixou tão agitada?
- Eu... Eu preciso subir!
- Mas... Peraí, por que a pressa?
- É uma emergência!
Me soltei um pouco indelicadamente de seus braços. Olhei em seus olhos para saber se o tinha magoado, mas só encontrei dúvida e confusão.
- Lu, olha, a gente pode se encontrar de novo amanhã? - ele passou a mão nos cachos de seu cabelo, nervosismo. - acho que... Sei lá... Você é a garota mais incrível que já conheci, não queria que você sumisse feito a Cinderela. Até porque eu não sou nenhum príncipe.
Nós rimos juntos. Mesmo naquela confusão. Ele me fez rir. Como eu gostava daquele garoto.
Olhei para a porta de vidro, e Rafael passava por ela. Sorriu ao me ver, mas sua expressão se transformou, de feliz para questionante, ao olhar para Diego.
- Ah! - arfei - eu tenho que ir. Sim, a gente se encontra amanhã.
Rafael estava vindo até nós, eu devia evitar aquele encontro, mas era muito difícil me despedir de Diego.
Eu olhei para Diego, dei um sorriso de despedida e ele retribuiu. Me virei para Rafael e comecei a ir até ele. Diego segurou minha mão e disse:
- Tchau, Lu. Até amanhã - ele sorriu o seu sorriso perfeito com covinhas, e eu tive de sorrir de volta, não aguentei -, temos um encontro.
- Combinado - tive vontade de lhe dar um abraço apertado, mas não podia fazer isso.
Soltei sua mão delicadamente. Andei de encontro a Rafael. Olhei para trás e Diego ainda estava lá, encostado na beirada onde haviámos nos encontrado, sorrindo.
Não segurei a mão de Rafael. Não queria fazer isso com Diego olhando.
- Quem é aquele cara? - perguntou em um sussuro.
- Um novo amigo - dei de ombros, fingindo que não era importante.
- Ah - ele disse, olhando para trás, para Diego, seus olhos se estreitando.
Olhei para baixo, minhas mãos estavam nos bolsos. Bolsos desconhecidos. Aquele era o casaco de Diego! Como foi que Rafael não percebeu? O casaco era realmente muito maior do que a numeração que eu usava. Diego era alto e forte.
No dia seguinte, todos acordaram cedo. Papai nos levaria ao porto de Almería. Um local muito visitado por turistas naquela época. Ficaríamos fora o dia todo. Como eu encontraria Diego assim?
Eu precisava fazer alguma coisa antes de me levantar da cama.
Comecei a tossir. Fungar. Raspar a garganta.
Minha mãe ficou preocupada.
- Que foi filha?
- Acho que não deveria ter ficado lá fora ontem - declarei, exagerando na voz rouca, mas ela não pareceu perceber -, a sinusite atacou.
- A filha! Você não pode ir! Deve ficar aqui e descansar. - ela virou o rosto, procurando por alguém - Vou falar pro Paulo suspender o passeio.
- NÃO MÃE! - falei alto, esquecendo o disfarce da voz rouca - Não, eu não quero estragar o passeio de ninguém. Vocês devem ir.
Os outros se aproximaram, atraídos pela preocupação de minha mãe
- O que tá acontecendo Lu? - Rafael perguntou.
- Eu só estou com crise de sinusite. Só isso, não precisam se preocupar - dei um pigarro, de mentira, fingindo estar normalizando a voz -, posso ficar aqui sozinha.
- Quer que eu fique com você? - Rafael estava preocupado. Me senti culpada por mentir pra ele mais uma vez.
- De jeito nenhum! Você dois, sozinhos, aqui? - minha mãe esbravejou, com raiva - Nem pensar! - tentou recuperar o tom normal da voz, sem sucesso - eu fico com você Luciana.
Tudo bem. Eles foram. Mamãe ficou comigo para me ajudar em qualquer coisa que precisasse. A única coisa que eu queria era que ela dormisse ou se distraísse, para que eu pudesse escapulir e encontrar o meu "amante".
Minha mãe pegou um livro e deitou na cama king size para ler. Era um romance de mais de quinhentas páginas que estava empenhada em terminar. Ela mergulhava na história e só parava quando seus olhos ardiam, ou quando o livro chegasse ao fim.
De onde ela estava não podia vez a minha cama. Me levantei sorrateiramente, coloquei alguns travisseiros em baixo do edredon e troquei de roupa silenciosamente.
Sai do quarto fazendo o mínino de barulho com a porta. Desci desesperadamente pelo elevador, olhando repetidas vezes para o número que marcava o andar e que mudava preguiçosamente.
Cheguei ao lobby. Corri para o corredor onde estava a porta de vidro que me levaria a área onde se localizava a piscina, agora o meu lugar preferido no hotel.
Meus olhos percorreram todo o local e ele estava ali. Debruçado sobre a mesma beirada.
Fui até lá fazendo silêncio com os pés. Tentando lhe fazer uma surpresa, cobri seus olhos com as mãos.
- Adivinha quem é? - perguntei, não disfarçando a minha diversão. Ele pôs as mãos sobre as minhas, e eu estremeci.
- Luciana! - cantarolou o meu nome e se virou para mim, ainda segurando as minha mãos - e aí? Está pronta?
- Claro que sim!
- Você nem sabe do que se trata! - ele riu e eu ri junto com ele.
- Mas eu confio em você! - soltei uma mão e arrumei um cachinho rebelde no seu cabelo.
- Então vamos! - ele me puxou em direção a porta de vidro, para a recepção do hotel. Claramente animado.
Me levou para a porta de vidro do lobby que dava para a rua.
- Aonde vai me levar? - perguntei com a empolgação indisfarçável na voz.
- Surpresa!
Não. Eu odeio surpresas. A curiosidade crescia dentro de mim.
Mas o sentimento de liberdade que eu sentia enquanto andávamos pela calçada, era maior do que a curiosidade.
Me sentia feliz. Como um pássaro preso em uma gaiola, quando alguém abre a porta, ele pode voar sem restrições.
Eu ainda tinha a gaiola.
Mas também tinha alguém para abrir a porta da gaiola para mim. Diego.
Luciana fugiu do namorado, da mãe e do resto de sua família. Diego fará com que essa fuga valha a pena? Pra onde ele a levará?
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