segunda-feira, 7 de dezembro de 2009

Pôr do sol

Diego olhou para baixo, focalizando os meus pés.
- Que bom que você veio de tênis - ele sorriu maliciosamente, como uma criança que fez alguma arte.
- Por que? - a curiosidade ainda batalhava para ser o sentimento predominante.
Ele usava uma mochila abarrotada, eu só havia notado isso naquele momento.
- Supresa! - ele repetiu, aquilo estava me deixando louca!
Entramos em um ônibus que tinha escrito o nome de ruas desconhecidas para mim, mas que Diego conhecia, com certeza.

Paramos em um local em que muitas pessoas também desembarcaram. Havia uma padaria a poucos metros do ponto do ônibus. Ele me levou até lá.
Aquele estabelecimento era bem tradicional. Possuía balcões de madeira, uma caixa registradora antiga, três mesas de alumínio e um delicioso aroma de pão, que acabara de sair do forno.
Diego foi ao balcão principal e eu o segui. Se virou para a mulher para fazer o pedido.
- Bueno días - ela nos comprimentou - ¿Lo que quieren? (o que desejam?)
- Por favor, dos panes de queso - ele lhe pediu, em um espanhol impecável.
A mulher se virou para a vitrine que ficava atrás do balcão e pegou dois pães de queijo, os colocou sobre uma bandeja e a entregou a Diego.
- Aquí estás. - a atendente ruiva, com olhos castanhos, usando um uniforme vermelho e um avental branco, sorriu e olhou para nós dois.
- ¿Puede nos servir dos vasos de leche con chocolate? (Pode nos servir dois copos de leite com achocolatado?)
- Sí - a mulher agiu rapidamente, preparou um leite com nescau com muita habilidade. Colocou os dois copos sobre a bancada - Aquí estás. - ela repetiu.
- Gracias - eu e Diego falamos em coro.
Peguei os copos e fui até uma das mesas de alumínio, ele me seguiu.
Nos sentamos. Diego colocou a bandeja sobre a mesa, e eu coloquei os copos.
- Dexa eu te mostrar algo da minha terra - ele pegou um dos pães de queijo com um guardanapo e o levou até minha boca - abra-te sésamo! - fez uma voz grossa e nós rimos.
Abri a boca e mordi um pedaço. Ele sorriu enquanto eu mastigava.
- Hmmmm... - fiz um pequeno suspense - Muito bom!
Ele continuou sorrindo.
- Concordo! Sempre passo aqui quando vou para o lugar aonde vou te levar - ele olhou para os lados e sussurrou - É claro que o pão de queijo lá de Minas é muito melhor.
Nós rimos juntos novamente. Eu abri a boca, esperando mais.
Ele riu.

Depois de pagar a conta, Diego me levou de volta a calçada. Dessa vez fomos para a direita. Olhei para a frente e pude ver. Uma montanha enorme, não tão longe de onde estávamos. Como não percebi antes?
Andamos de mãos dadas por algum tempo. Quando chegamos a uma curva que determinava o fim da avenida, havia um pequeno portão de ferro escuro no mísero muro que havia ali.
- Aqui. - disse ele, irrompendo pelo portãozinho, com pressa, e me levando junto.
- O que tem aqui? - perguntei com curiosidade.
- Surpresa! - ele repetiu. Estava me enlouquecendo.
Além daquele portão, havia uma trilha, cercada por uma vegetação rasteira escassa, aquele lugar era bem parecido com um deserto. Existia uma subida sutil. Um lugar diferente dos que eu conhecia, lindo.
Nós subimos por um bom tempo, sempre de mãos dadas. Conversávamos, perguntávamos coisas da vida um do outro, rimos de alguma coisa que foi dita. Eu estava cada vez mais apaixonada por aquele garoto.

Depois de caminharmos um pedao muito longo, olhei no relógio, eram pouco mais de meio dia. Eu estava com fome, depois do café da manhã, não havíamos comido nada.
- Está com fome? - ele perguntou, parecia um pouco preocupado, mas não identifiquei muito bem o que ele sentia.
- Sim, um pouco. - eu sorri, enquanto ele pegava alguma coisa na sua mochila cheia.
- Vamos ver se você aprova isso - sorriu. Estava com um saco plástico branco nas mãos, que me entregou, para que ele pudesse fechar o zíper da mochila.
Diego pegou a sacola de minhas mãos, e se sentou em uma rocha que estava próxima, eu o segui.
Ele desamarrou o nó e tirou dois sanduíches de frios, dois sucos de caixinha e duas maçãs, com um sorriso nos lábios, me entregou, um de cada.
Começamos a comer, fiquei distraída em desfrutar daquilo, era simples, mas estava realmente muito bom.
Aquele momento foi incrível, era um momento de simplicidade, almoçando sanduíches, sucos de caixinha e maçãs, mesmo assim, foi maravilhoso! Passar o meu tempo com Diego era ótimo! E eu precisava aproveitar cada segundo, cada detalhe, porque eu teria de ir embora, iria voltar para o Brasil, isso estava me enlouquecendo. Eu não podia nem fazer um passeio com minha família, que já queria fugir para encontrar ele, quanto mais ir para outro país, ficar longe daquele sorriso, daquelas covinhas, daqueles cachinhos, daquela voz, aquele riso que parecia uma melodia, aquelas palavras brincalhonas que sempre aliviavam a tensão, a sinceriade, a vontade de dizer o que pensa, o desejo de alegria, mesmo com dificuldades, por ter perdido a mãe tão cedo, ele sempre queria estar feliz, sempre procurava por isso. Acho que foi o que mais me despertou atenção, seu anseio pela felicidade.
Quando terminamos, ele disse de repente:
- Sobraram dois sanduíches para mais tarde.
- Mais tarde? - fiquei confusa, aquela ali não era a surpresa, aquele almoço simples e divertido que fizemos juntos? Ficarmos juntos e sozinhos já era a maior surpresa que ele poderia me dar. Todo o resto valeria a pena, a raiva de Rafael, o castigo que mamãe me daria, a desconfiaça eterna de todos eles, nunca mais confiariam em uma doença minha, mesmo que fosse verdadeira. Isso não importava mais, Diego era o único que podia me fazer valer a pena tudo que aconteceria dali em diante.
- Claro, Lu! - ele me olhou nos olhos, falando como se fosse óbvio - Ainda tenho mais uma carta na manga - ele sorriu, e eu tive de sorrir junto.
- Se fosse só isso aqui, estaria ótimo. É disso que eu gosto, coisas simples, como sanduíches e maçãs. - eu sorri, disse a mais pura verdade. Sempre gostei de simplicidade.
- Sabe que... Uau! Seus olhos são ainda mais lindos assim, tão de perto - estávamos a centímetros um do outro. Meu coração estava batendo forte no peito, sentia uma sensação de borboletas no estômago - tão azuis como o céu - ele sussurrou.
Então, ele sorriu e se levantou. Quase gritei com ele. Como pôde desfazer aquele momento lindo, assim, tão rápido?
- Precisamos continuar - ele me colocou de pé com um puxão, então eu continuei a caminhada junto com ele, fazer o que?

Depois de caminharmos por um bom tempo, tive de admitir, estava cansada. Não caminhava tanto assim desde que tinha 8 anos, quando meu pai levou eu e meus irmãos para um acampamento de futuros escoteiros mirins. As crianças precisavam de um adulto como acompanhante, e papai logo se prontificou. Minha mãe ficou em casa, para ela, quanto mais longe de insetos, melhor. Uma das primeiras provas, era uma caminhada.
Eu não me tornei uma escoteira. Me cansava facilmente em caminhadas.
- Tome - Diego me entregou um sanduíche - coma e ande - ele deu uma risadinha - pode fazer os dois ao mesmo tempo?
Eu ri dele e comecei a comer o sanduíche.

- Estamos quase chegando - ele apertou minha mão com mais força. Sim, nós estávamos de mão dadas.
Andamos mais um pouco antes de chegarmos ao lugar correto.
Paramos.
Havia um precipício a nossa frente. Era uma vista maravilhosa! Era possível ver todo o mar de Almería do lugar onde estávamos. Se me virasse um pouco, a vista era de uma parte da cidade. Lindo! Lindo, lindo, lindo!
O sol estava descendo, transformando o azul do céu em um tom alaranjado, perfeito. A coisa mais bonita que já havia visto em toda a minha vida. Se eu não vivesse mais, morreria feliz, só por ter visto aquela imagem. Era como um sonho, ou um filme, um pôr do sol fabricado, mas não era, era real.
Era isso, Diego era o pôr do sol da minha vida. O momento mais lindo do dia. Quando nos sentimos felizes, só em vê-lo. Quando alguém se depara com o pôr do sol uma vez, quer encontrá-lo todos os dias, fica viciado. Se encanta com sua beleza e simplicidade. Todas as outras horas do dia se tornam inúteis, depois de conhecermos o pôr do sol.
- Lindo - sussurrei, com medo de que, se dissesse alto demais, aquilo poderia se dissolver.
- Esse é o lugar mais incrível de Almeria - Diego também sussurrou, entendendo o meu deslumbramento.
Ele estava a centímetros de mim. Se me virasse, nossos lábios iriam se tocar. E era isso que eu queria. Queria beijá-lo. Sentir o seu hálito na minha boca. Acariciar os seus lábios com os meus.
Aquele era um momento mágico. E se tornaria ainda mais perfeito se eu o beijasse.
Me virei.
Olhei em seus olhos, ele olhou nos meus.
Me deixei levar pelo momento.


Luciana está apaixonada por Diego e ele parece corresponder. O que pode acontecer com esse amor que nasceu tão inesperadamente?
Até o próximo post ;)

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