Magia.
Era o nome do que estava acontecendo ali. Um momento lindo e maravilhoso. Como uma cena de filme. Os segundos mais lindos que já vivi.
Diego se inclinou devagar.
Ele me beijou muito de leve nos lábios. Leve demais. Um selinho.
Seu beijo tinha gosto de dúvida. Ele devia estar se perguntado: Será que devo beijá-la? Mas, assim como eu, não conseguiu se segurar, foi levado pela atmosfera de amor.
Ele se afastou, e eu não entendi o porquê.
Sua expressão era de angústia.
Diego se virou e fitou o horizonte, colocou sua mochila no chão e pôs a mão direita na testa, depois de alguns segundos, murmurou tão baixo que quase não pude escutar:
- Me desculpe.
Ai. Isso doeu.
Acho que eu não beijo tão bem quanto imaginava.
Algo me puxou para um mundo em que eu havia esquecido que existia.
O meu celular estava tocando, o toque era bastante alto.
Atendi, enquanto olhava para as costas de Diego.
- Alô?
- Lu! Lu! Luciana! Luciana! Minha filha! Graças a Deus! – ouvi a voz desesperada de minha mãe – onde você está garota? Quer me enlouquecer?
- Calma mãe! – falei em alto e bom som, para ela saber que eu estava bem, pelo menos por fora. – eu estou bem!
- AH, graças a Deus! – ela repetiu – onde você está? – mamãe acalmou o seu tom de voz, dava pra sentir o alívio dela.
- Estou com um amigo - amigo? Acho que ele não queria que fôssemos mais do que isso. Me encolhi com esse pensamento e balancei a cabeça para afastá-lo de meu cérebro – nós estamos bem. Ele me levou para conhecer um pouco mais a cidade. Não precisa se preocupar.
- Claro que preciso me preocupar! – sua voz aumentou o tom novamente – você estava doente, mal podia se levantar da cama, quando olho para o lugar onde você deveria estar, simplesmente não está lá! Como você acha que eu me senti quando não achei você? Pensei que podia ter ido ao banheiro, mas quando procurei lá, não havia ninguém! Então imaginei um sequestro ou algo parecido. Uma abdução alienígena? Um passe de mágica? NÃO! Quando tiver filhos, eles também vão te deixar maluca de preocupação, você vai ver...
- Ta bom, mãe! Já entendi! – resolvi falar a verdade, não podia mentir pra minha mãe – eu fugi mãe! Fugi de todos vocês! Para me encontrar com Diego! – ele se virou ao me ouvir pronunciar o seu nome – precisava fugir, ou não me deixariam me encontrar com ele! – eu e Diego nos olhávamos nos olhos um do outro intensamente, enquanto eu falava.
- O QUÊ? – agora mamãe gritou, estava realmente muito nervosa – VOCÊ FUGIU? COMO ASSIM?
- Se acalme mãe.
- Ta bem, estou calma – ela respirou fundo – me explica isso direito.
Depois de explicar tudo para minha mãe, ela se convenceu, mas ao se despedir ela disse:
- Volta pro hotel agora! E você não perde por esperar a surpresa que encontrará quando chegar. Tchau!
Estremeci com um pouco de medo. Mamãe disse que o celular estava no viva-voz e que todos haviam escutado a nossa conversa. Ou seja, Rafael já sabia que eu havia fugido com outro garoto. Eu teria de enfrentar a sua raiva. Ele devia estar furioso. Bastante furioso. Ou pior: se sentindo traído. Não por eu ter saído com outro, mas por eu ter mentido sobre isso. Meu namorado (ou ex?) era muito compreensivo, porém, não tolerava nenhum tipo de mentira.
E outra coisa que me deixava menos ansiosa para voltar era o castigo. Meu pai e minha mãe iriam me castigar. Não com violência ou tirando alguma coisa que eu gostava, até porque nunca usaram disso para corrigir, eles faziam uma correção psicológica, falavam demais, até que perdessem a saliva, algo que me fazia pensar, pensar e pensar muito. Quando recebia um castigo psicológico de papai e mamãe, eu mal conseguia dormir, porque o peso na consciência é pior do que qualquer dor física. Não que os meus pais sejam pessoas do mal, eles fazem isso para o meu bem, para que aprenda o jeito certo de agir em determinada ocasião.
Tive de esquecer o que viria e pensar no presente. Respirei fundo. Eu sabia que não seria fácil.
Diego ainda me olhava nos olhos. Isso me deixava sem jeito. Baixei o olhar para falar.
- Eu preciso ir – parecia que eu ia começar a chorar a qualquer momento.
Ele me ignorou e fez uma pergunta.
- Você realmente fugiu deles? – seu tom de voz era o de alguém assustado – Por que não me disse? Eu não teria te trazido aqui se soubesse.
- Não me arrependo disso. – levantei o rosto e também olhei em seus olhos – Não me arrependo de nada. Nada mesmo. Tudo que passei aqui, com você, faz com que tudo valha muito a pena.
As lágrimas começaram a descer de meus olhos. Eu não pude evitá-las. Ele estava me rejeitando e isso doía mais do que se me batesse.
- Está chorando? – seu tom de voz ficou preocupado e sua expressão era de dor. Veio até mim e me apertou forte em seus braços – não chore. Não suporto lágrimas tristes. Não chore por mim, eu não mereço.
Eu soluçava em seus braços, minhas lágrimas encharcavam sua blusa de malha azul-clara, que cobria um tronco perfeito.
Solucei mais uma vez e senti um tremor subir pela base de minhas costas.
Ali ventava muito. Até agora eu não havia percebido. Fiquei com frio no exato momento em que tremi. Então, meus dentes bateram. Trinquei o queixo para evitar isso.
Diego percebeu o meu tremor e pareceu – falsamente – preocupado.
Ele foi até a sua mochila e pegou algo preto, voltou e me entregou.
- Tome. Vista isso.
Eu peguei e sacudi. Era um casaco. O vesti com rapidez, enquanto algumas lágrimas ainda teimavam em cair de meus olhos.
Diego enxugou as pequenas gotas e me apertou novamente, mais forte.
- Temos de ir, ou só chegaremos tarde da noite – ele disse distraído, parecia falar com si próprio.
Ele pegou a mochila e a colocou nas costas, passou o braço direito sobre os meus ombros.
- Vamos?
- Vamos. – murmurei tão baixo, que penso que ele não pode ouvir.
A volta para a cidade foi silenciosa e estranha. Nenhum de nós disse algo importante, foram apenas alguns comentários sobre o dia, os sanduíches, o sol, a lua que chegava, e mais nada.
A ida demorou mais do que a volta. Por ser uma descida, na volta nós gastamos metade do tempo do que na ida.
Pegamos o ônibus e voltamos para o hotel. Diego estava com o braço o tempo inteiro nos meus ombros. Não demos as mãos. Ele deveria pensar que eu ainda estava com frio. Mas não estava, só queria manter o seu braço ali, esquentando o meu coração, que estava machucado desde o momento em que ele pediu desculpas por me beijar.
Ele não queria me beijar, era isso, por que uma pessoa pede desculpa por beijar a outra? Não dava pra entender, eu pensava que ele também gostava de mim. Mas estava enganada.
Entramos no hotel e havia várias pessoas no lobby, quando passei pela grande porta de vidro da entrada, todos que estavam ali vieram até mim. Parecia que Diego era invisível. Eles davam atenção somente a mim. Não era só minha família. Haviam outros desconhecidos ali.
Ele pegou minha mão e apertou. E então foi embora, passando entre a pequena multidão de pessoas. Fiquei na ponta dos pés para tentar vê-lo ir embora. Queria gritar para que só ele escutasse: Amanhã de manhã podemos nos encontrar? Temos que conversar!
Ele se virou por um segundo e encontrou os meus olhos. Pode ver a pergunta na minha expressão, então, balançou a cabeça negativamente.
Ele estava me rejeitando mais uma vez. Eu não podia suportar aquilo. Doía muito. Muito mesmo.
As lágrimas começaram a jorrar mais uma vez. Eu não havia percebido, até que alguém ali viu e disse:
- Ela está chorando!
- Qual é o problema filha? – reconheci a voz de meu pai.
Desabei em seus braços e chorei, chorei e chorei.
Eles me levaram para o quarto. A última coisa daquela noite de que me lembro foi de quando estava deitada na cama de casal que dividia com Junior, e pude sentir Rafael, enxugando as minhas lágrimas e dizendo com uma voz preocupada e suplicante:
- Não chore. Estou aqui com você. Está tudo bem.
Depois de falar isso, ele me deu um beijo leve na boca. Era um beijo suave e relaxante, mas não era o beijo que eu queria.
Eu estava cansada e com muito sono, mas lutei contra isso e consegui dizer:
- Não está bravo comigo? – sussurrei e tive certeza que ele ouviu.
- Amanhã nós conversamos. – ele respondeu num tom enigmático.
Pensei um segundo sobre isso e estremeci, é claro que ele estava bravo. Luciana idiota. Arriscou tudo por um garoto que não queria nada com você. Uma voz no fundo da minha mente insistia em me incomodar, e então, eu dormi em um sono profundo.
Rafael perdoará Luciana? Diego tem algum motivo para ter se desculpado por beijá-la?
quinta-feira, 17 de dezembro de 2009
Beijo certo
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Um comentário:
Tão lindoooo *-*
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