"Ai pai, volta, eu tô morrendo de saudades"
Eu pensei alto, tentanto - inultimente -, fazer meu pai escutar, lá na Europa, na Espanha, numa cidade chamada Almería, nunca tinha ouvido falar, até que meu pai foi convidado para "estudar" aquela região, da cordilheira Bética - ele é geólogo.
Eu deveria estar acostumada, afinal, geólogo viaja muito. Só que o meu pai nunca havia saído da América. Acontece que ele foi enviado para essa grande "missão" porque o colega de trabalho dele desistiu e só o meu pai estava disponível na empresa.
Estava ali, sentada na varanda da minha casa, uma casa bonita, com certeza, mas não luxuosa, apesar de termos condições de irmos para um lugar melhor, preferimos ter uma vida confortável onde nos sentimos bem, em um bairro de classe média de Cabo Frio, localizada à quase 200 km da capital do Rio de Janeiro.
Cabo Frio é o lugar perfeito para mim e minha família, sol, praia e tranquilidade. Sim, tranquilidade. Na época de baixa temporada é uma calmaria que só vendo. Mas confesso que adoro o agito da alta temporada, é divertido quebrar a rotina.
A casa, pintada, recentemente, num tom verde-claro - a cor preferida do meu pai -, tem uma porta de madeira, alta, fora do contexto da cidade, é acompanhada de quatro janelas de vidro, duas de cada lado. Tem uma varanda - meu lugar preferido -, um gramado florido, um muro nem alto nem baixo, um portão branco, três quartos, dois banheiros, uma sala, uma cozinha e uma casinha de cachorro.
A minha família é ótima. São todos muito engraçados e divertidos. Os membros são: o meu pai, Paulo Roberto, a minha mãe, Luiza, o meu irmão mais velho, Eduardo ou Dudu, eu, Luciana e o meu irmão mais novo, Paulo Roberto Júnior ou Paulinho ou Juninho, e tem também o meu cachorro , o Splash.
Estava pensando na minha vida, sentada na varanda de casa, o piso frio acalmando o calor de minha pele quente. Um sol escaldante me atingindo na lateral de meu corpo, poucas nuvens no céu, felpudas e branquinhas, formando desenhos e imagens, dentro da imaginação. Sem dúvida, um dia lindo.
- LUCIANA! PELA CENTÉSIMA VEZ!
NÃO! Eu viajei! Quando eu mergulho nos meus pensamentos, é bem difícil me fazer voltar a superfície da realidade. E eu conhecia aquele chamado. Ela me pediria alguma coisa.
- Oi mãe! Tô aqui! O que você vai pedir?
- Ah, você sabe que eu odeio quando chamo e não respondem né?
- Sei mãe, continue...
- Dessa vez passa, hã - sua expressão mudou em um segundo, de nervosa para suplicante - que tal você ir pegar o seu irmão fofinho da escola?
O.k. Ela estava tentando me convencer. É lógico que ela conseguiria. Eu sou vidrada no meu irmãozinho. Mas eu confesso, estava com preguiça de sair dali, da varanda, tão aconchegante.
- Você não pode ir? - olhei aquele rosto de senhora jovem, os cabelos castanhos, os olhos azuis, a pele branca levemente queimada do sol, e não pude resistir, dona Luiza conquista qualquer um com aqueles olhos.
- Não, filha. Eu preciso ir na casa da dona Márcia, levar umas roupas para ajustar, um chinelo do Dudu pra trocar e ...
- Tá bom mãe! Você venceu! - ergui as minha mãos, como alguém que se rende, e abri um sorriso.
- Hoje é o último dia de aula dele também, finalmente, férias para os meus bebês! - Eu e o Dudu estudavámos de manhã, e aquele tinha sido nosso último dia de aula.
Minha mãe abriu um sorrisão lindo no rosto bronzeado, me deu um beijo em cada buchecha e um tapa na bunda
- Anda menina! - disse, num falso tom de autoridade.
Eu fui andando. A escola do Paulinho é bem pertinho de casa, não é a mesma que a minha e a do Dudu. Paulinho tem 10 anos, eu tenho 14 e o Dudu tem 17. Faço 15 em janeiro. Havia resolvido não fazer festa de 15 anos, que sentido teria, se meu pai não poderia participar? Ele teria que estar na Espanha até a metade do ano que vem. Nas próximas férias de julho, no máximo, ele voltaria.
Cheguei à porta da escola, a aula já havia terminado, entrei no meio da confusão de pais e filhos se encontrando, para achar o meu irmãozinho. Eu vi, um garoto ansioso e inquieto, cabelos pretos como os meus, pele branca levemente bronzeada e os olhos azuis, muito parecidos com os meus. Paulinho e eu somos mais parecidos com mamãe, tirando os cabelos, que são negros como os de meu pai, Dudu tem mais de papai, os olhos esverdeados e o cabelo castanho, como o de minha mãe. Temos um pouco de cada um.
Paulinho abriu os braços e eu abri os meus, ele correu até mim, lhe dei um abraço e o ergui do chão, fazendo um giro de 360º, nós rimos e eu o desci, dando um beijo na buchecha.
- Você tá cada vez mais pesado em? - articulei os braços, fingindo dor.
- Você é que tá cada vez mais fracote! - nós rimos, eu peguei a mochila de suas costas e passei para mim.
- Então está oficialmente de férias? - ele sorriu
- Finalmente! - ergueu o punho direito, como quem comemora uma vitória. Um sorriso largo e contagiante continuou, tingido de esperança - será que nós vamos visitar o papai lá na Espanha nessas férias?
- Ah Juninho, isso eu não sei. Mas seria muito bom. Poderia ser meu presente de aniversário, todos viajarmos para a Europa, visitando papai.
- É mesmo né? Quando a gente chegar em casa, falamos com a mamãe.
- Claro. Peraí, meu celular tá tocando.
Eu e meu irmão estávamos andando de mãos dadas, no caminho de casa. Eu atendi meu celular, sem olhar quem era.
- Alô?
- Alô! Ei Lu! Sou eu, Rafael.
Rafael é o meu namorado, a pessoa mais incrível do mundo inteiro. Ele é lindo, tem o cabelo castanho-claro, mas bem claro mesmo, olhos pretos em contraste com a pele branca e pouco bronzeada, tem 16 anos.
- Ei meu amor! Como você tá?
- Melhor agora! - nós rimos - você tá em casa?
- Ainda não. Eu fui buscar o Juninho da escola. A gente tá voltando agora.
- Ah! - a voz dele era empolgada, e desmoronou um pouco.
- Por que você não vai pra lá? Nós já estamos chegando.
- Então eu vou! Te vejo daqui a pouco! Vai parecer uma eternidade...
- Pra mim também. Eu te amo.
- Eu sei - nós rimos e ele desligou.
Meu namorado mora perto da minha casa, na rua de baixo, paralela à minha rua. Nós estudamos na mesma escola, mas não na mesma sala, ele está uma série acima de mim. Passei para o 1º ano e ele para o 2º.
Quando Paulinho e eu chegamos em casa, Rafael já havia chegado, estava bem a vontade, vendo televisão na sala e conversando com minha mãe e com meu irmão mais velho. Quando me viu, levantou e veio me dar um beijo de leve na boca, um selinho. Foi o bastante para fazer o meu coração disparar mais rápido que as asas de um beija-flor. Quando ele terminou, soltei um suspiro de reprovação e todo mundo riu da minha reação, eu fiquei vermelha de vergonha.
- Tenho uma surpresa pra você Lu! - Rafael disse, com uma animação evidente.
- O que é? Me fala! - sou muito curiosa, surpresas não são coisas boas para mim, sempre fico ansiosa para saber do que se trata.
- Calma, curiosa! - minha mãe disse, um sorriso sarcástico no rosto dela, e no rosto dos outros também, todos eles já sabiam o que era, menos eu. Até o Paulinho. Isso era enervante.
No próximo post, qual a surpresa de Rafael? Luciana comemorará seu aniversário de um jeito especial? Ou passará em branco?
2 comentários:
lindoo rsrs
lindoooooooooooo RS
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